Aldeia Olímpica

O porta-bandeira de Chipre torceu um pé ao sair do autocarro, estatelando-se ao comprido no chão. Atrás dele saiu uma nadadora do Suriname que nada fez para o ajudar. Três canoístas canadianos passavam por ali no momento da queda mas também nada fizeram. Assistindo à cena a vinte metros de distância, o chefe da comitiva grega abanou a cabeça e murmurou para o chefe da comitiva norueguesa: «Não foi para isto que o Barão Pierre de Coubertin, esse grande francês, reinventou os Jogos». Meia hora antes, quatro ginastas ucranianas foram apanhadas a roubar ganchos para o cabelo numa loja de souvenirs. A mesma loja em que se venderam dezenas de postais com os cinco anéis, remetidos nessa tarde ou no dia seguinte para países tão remotos como a Arménia, Nova Zelândia, Belize, Samoa, Tadjiquistão ou Zimbabué. Na cafetaria, os velocistas da Jamaica sentaram-se à parte para beber café, o que motivou comentários jocosos dos velocistas de Saint Vincent e Grenadines, Saint Kitts e Nevis, Trinidad e Tobago, Granada, República Dominicana e Ilhas Virgens Britânicas. Uma halterofilista turca assumiu o seu relacionamento amoroso com uma jogadora de hóquei em campo argentina, ao publicar no Facebook uma foto em que as duas se beijam, no intervalo do jogo de pólo aquático entre a Hungria e a Eslovénia. A melhor dupla chinesa de saltadores para a água, favorita à vitória, desentendeu-se momentos antes da prova e ofereceu ao mundo um inesperado e violentíssimo espectáculo de pancadaria sincronizada. Nos dias de folga, o atirador com pistola livre do Cazaquistão organiza simultâneas de xadrez no jardim, mas se os atletas dos países balcânicos (croatas, albaneses, sérvios, montenegrinos) têm correspondido, os outros tendem a preferir os seus iPods, iPads e playstations. Meio desorientada, a judoca do Chade pediu ajuda a um basquetebolista nigeriano mas ele não ouviu, talvez porque as palavras têm alguma dificuldade em chegar lá acima. Com os fatos de treino vestidos, ninguém repara nas duas esculturais brasileiras do volley de praia, enquanto elas discutem, na fila da farmácia, qual a cachaça certa para fazer a melhor caipirinha do planeta. O lançador do dardo checo traz hoje uma t-shirt com o rosto de Zátopek (tem no quarto outra, muito parecida, com a efígie de Kafka). Feitas as apresentações, alguém se apercebe que no grupinho formado espontaneamente só estão desportistas de países começados pela letra M (Madagáscar, Malawi, Malásia, Maldivas, Mali, Malta, Mauritânia, Maurícia, México, Micronésia, Moldova, Mónaco, Mongólia, Marrocos, Moçambique e Myanmar), o que provoca, sem que se perceba bem porquê, uma enorme gargalhada colectiva. Um pugilista nicaraguense enorme (categoria peso super-pesado; ou seja, com mais de 91 quilos) desabafa com um pugilista lingrinhas do Panamá (categoria peso mosca-ligeiro; ou seja, com menos de 49 quilos) que tem muitas, mas mesmo muitas, saudades da sua filha de dois anos e meio, a Carmen, «tão pequenina, tão doce, tão bonita», luz dos seus olhos que já não vê há três semanas. O saltador em comprimento da Serra Leoa lê o jornal com um ar preocupado, à procura de notícias sobre o seu país (quando aparecem nos jornais internacionais, é mau sinal; quando não aparecem, também é mau sinal). No terraço do edifício onde está alojado, o lutador cubano mais velho fuma um charuto às escondidas e observa, de longe, a equipa de perseguição em bicicleta alemã e os remadores austríacos a caminharem, em amena cavaqueira, até ao ponto em que divergem para os respectivos centros de treinos. «Saltar à vara é bom, saltar à vara é maravilhoso, saltar à vara é a única coisa que eu quero fazer na vida, mas já chega de me chamarem o ‘holandês voador’», pensa o holandês voador. Depois de ter sido candidata a Miss Mundo aos 18 anos, a velejadora venezuelana de 27 anos (classe Laser) aspira a um outro tipo de glória, uma glória sem o martírio dos vestidos de noite, das tiaras, das lágrimas obrigatórias e dos desejos profundos de paz no mundo e de felicidade para todas as crianças, especialmente as abusadas, as abandonadas, as subnutridas. Agora a sério, parem de pedir ao trampolinista das Ilhas Caimão conselhos sobre a melhor forma de abrir uma conta bancária off-shore porque ele não acha mesmo piada nenhuma à brincadeira. Sem aviso, um repórter irlandês pergunta maldosamente ao representante chileno no triatlo se sabe mostrar no mapa-mundi onde ficam Aruba, a Samoa Americana, Antígua e Barbuda, Kiribati, Tuvalu, Guam, Nauru, Palau, Vanuatu e Santa Lucia, ao que o representante chileno no triatlo responde, com honestidade e candura, que nunca sequer ouviu falar de tais lugares. Entre as voleibolistas turcas, há uma especialmente tímida, incapaz de dizer «Bom dia» com voz que se oiça, mas cuja personalidade se metamorfoseia durante os jogos, ao ponto de gritar os impropérios mais obscenos às colegas de equipa, se uma delas não se esforça na recepção ou falha o tempo de salto para o bloqueio. Se o especialista estónio dos 5000 metros mal consegue andar por causa das bolhas nos pés, a dupla sueca dos 1000 metros em K2 mal consegue pegar nas cervejas por causa das bolhas nas mãos. O norte-americano apontado como principal favorito à vitória nos 400 metros planos tem todos os dias o mesmo pesadelo, no qual dá o seu máximo e está certo de bater o recorde do mundo, só para descobrir ao cortar a meta que ficou em segundo lugar, atrás de uma figura difusa a que o seu psicanalista chamaria uma materialização do seu medo de perder. Para descomprimir entre as várias provas, há quem jogue ténis de mesa a tarde toda, mas os representantes de Hong Kong no torneio de ténis de mesa, compreensivelmente, preferem ver televisão. Apesar de tão óbvia, a velha ordem alfabética tem sempre os seus admiradores, que o digam os 24 atletas de Andorra, Bahamas, Cambodja, Djibouti, Eritreia, Fiji, Granada, Haiti, Indonésia, Jordânia, Kuwait, Letónia, Macedónia, Niger, Oman, Papua Nova Guiné, Qatar, Ruanda, San Marino, Tanzânia, Uganda, Vietname, Yemen e Zâmbia a quem pediram que se perfilassem ao lado uns dos outros. Quando a ciclista búlgara quase atropela o maratonista costa-marfinense, aumentam muitíssimo as probabilidades de nascer, cerca de um ano mais tarde, um belíssimo bebé mulato intercontinental. As opiniões valem o que valem, mas toda a gente acha que o treinador da selecção de ginástica rítmica polaca anda triste demais (como se lhe tivesse morrido um familiar próximo) e o ex-campeão de tiro ao arco sul-coreano excessivamente eufórico (como se tivesse arrebatado o maior prémio de sempre na lotaria). Na zona do controlo anti-doping, o afegão que está inscrito nos combates de Taekwondo olha com alguma desconfiança para um halterofilista russo, pensando: «Será que foi o pai dele a matar o meu no ataque a Kandahar ou terá sido, antes desse dia negro, o meu pai a matar o dele nas montanhas que cercam Cabul?» O marchador colombiano começou por responder com indiferença aos comentários mordazes sobre o grau de masculinidade (ou falta dela) da disciplina a que se dedica há 15 anos com o máximo empenho; depois, ao ver que os comentários persistiam, lembrou em voz alta aos gozadores que o seu irmão mais velho é um dos cabecilhas do cartel de Medellín e foi, como se costuma dizer, remédio santo. Quem gosta de couscous sabe que a argelina lançadora do peso faz um tajine de chorar por mais, embora as suas actividades gastronómicas, necessariamente clandestinas, nunca tenham dia ou hora certos. Ao meio-fundista boliviano tudo parece mais fácil cá em baixo, onde o oxigénio não falta e os caminhos não são íngremes, nem de terra, nem se arriscam a desaparecer no meio das nuvens. Cinco futebolistas hondorenhos saíram à noite e só voltaram, de manhã, «com um ar esquisito», segundo alguns compatriotas da delegação que os conhecem bem. O esgrimista do Bahrain trouxe consigo uma considerável biblioteca (uma mala cheia com mais de 50 volumes de estudos corânicos), o que fez sorrir o seu adversário finlandês na segunda ronda, também ele leitor voraz, mas de romances policiais escandinavos (umas quantas dezenas, comodamente guardados na memória do seu Kindle). A estafeta australiana de 4 x 100 metros livres nada em conjunto há tanto tempo que se consideram uma família e como todas as famílias por vezes discutem, incompatibilizam-se, amuam, proclamam o seu afecto uns pelos outros, zangam-se outra vez e reconciliam-se no fim (o extraordinário é que tudo aconteça durante um único treino). À representante das Comores o anonimato não deve custar muito porque, assinala com manifesto prazer um comentador televisivo que se tornou conhecido pelo seu cinismo, «afinal de contas ela vem das Comores». O maratonista islandês tem literalmente inscrita no corpo a distância que percorre há oito anos (é uma tatuagem simples, a dizer 42,195 kms, um pouco acima do calcanhar). De comum, os atletas da República Democrática da Coreia do Norte e da República Democrática do Congo só têm o facto de representarem países que não são democráticos. Toda a gente se queixa do excesso de controlo na aldeia, menos o judoca palestiniano, que vive em Jenin, tem uma avó doente que mora em Jerusalém e sabe o que sofre, diariamente, para ultrapassar os checkpoints à ida e à volta. Com os seus modos mansos, a sua mosquinha no queixo e os olhares dengosos, o porto-riquenho especialista em 110 metros barreiras tem fama de gigôlo (e talvez algum proveito). Para a delegação saudita, qualquer movimento de súbditos nacionais no exterior representa um enorme perigo de contaminação cultural, pelo que foram já accionados os mais mirabolantes mecanismos de vigilância e controlo, nem sempre tão eficazes quanto os responsáveis dão a entender nos relatórios que enviam de hora a hora para Riade. O tenista suíço sabe que há torneios mais importantes para ganhar do que este, uma vitória aqui não substitui um triunfo em Melbourne ou Roland Garros, e isso talvez o desmotive um pouco, ou se calhar são as enxaquecas, não tem bem a certeza. O nadador de Tonga sabe que o Tonga só é bom em râguebi, mas infelizmente o râguebi é um dos desportos que não se pratica nos Jogos. Para o tapete onde se decidem os combates de luta greco-romana, o lutador indiano gostava de levar muitos braços, como os da deusa Kali, mas não só não os tem como sabe que os regulamentos nunca permitiriam uma tal extravagância. O peso galo (isto é, menos de 56 quilos) do Uzbequistão nem sempre andou aos murros com luvas de boxe; houve um tempo em que andou aos murros com as mãos nuas e os muitos narizes partidos dos seus colegas de escola são a marca viva de um talento na altura ainda em bruto. Por razões não especificadas, o lançador do disco angolano e o roupeiro de Cabo Verde, ambos visivelmente embriagados, envolveram-se numa rixa com navalhas e garrafas partidas, da qual saíram miraculosamente ilesos, salvo algumas escoriações superficiais e golpes pouco profundos nos braços (de uma das janelas, o delegado da Guiné Bissau gritou bem alto: «Até aqui fazem cenas dessas? Não têm vergonha?»). Ao entrar na cantina, um velejador belga da classe 470 trauteia com certo orgulho uma canção de Brel e parece feliz ao perceber que as batatas fritas fazem parte dos acompanhamentos para o almoço. Jaz o jocoso judoca japonês, justapondo júbilo e jasmim. Estavam quatro – um andebolista espanhol, um cavaleiro egípcio, o dinamarquês do windsurf e o italiano do decatlo – quando ela passou, ela a praticante libanesa de ginástica rítmica, mais as suas ancas rítmicas, os seus seios rítmicos, o seu rosto rítmico, o seu corpo rítmico, toda ela rítmica e os quatro como que enfeitiçados. Num computador portátil, alguém consulta a lista de todos os países participantes e vai transcrevendo para um moleskine, com caligrafia trémula e por vezes quase ilegível, alguns deles: Azerbaijão, Bangladesh, Barbados, Bielorrússia, Benin, Bermudas, Butão, Bósnia-Herzegovina, Botswana, Brunei, Burkina Faso, Burundi, Camarões, República Centro Africana, Congo, Ilhas Cook, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Guiné Equatorial, Etiópia, Gabão, Gâmbia, Geórgia, Gana, Guiné Conakri, Guiana, Irão, Iraque, Israel, Quénia, Quirguistão, Laos, Libéria, Líbia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Namíbia, Nepal, Paquistão, Panamá, Paraguai, Filipinas, Roménia, São Tomé e Príncipe, Senegal, Seycheles, Singapura, Eslováquia, Ilhas Salomão, África do Sul, Sri Lanka, Sudão, Suazilândia, Síria, Taipé, Tailândia, Timor-Leste, Togo, Turquemenistão, Uganda, Emirados Árabes Unidos, Uruguai. Um comissário britânico repara no afã do escriba e pergunta-lhe porque anota ele aqueles países no seu caderninho. Responde o português: «Escrevo para os cortar da lista. Já não tenho histórias e situações que cheguem para todos.»



Comentários

2 Responses to “Aldeia Olímpica”

  1. Nuno on Agosto 16th, 2012 19:07

    Maravilha bem-disposta. Não despreguei olho. Com histórias dos países todos que não entraram, por certo, em vez de jantar, ceava :)

  2. hmbf on Agosto 16th, 2012 19:15

    boa malha :-)

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges