O senhor F.

O senhor F. não sabe que as outras pessoas o tratam por senhor F., quando ele não está presente. Se soubesse que as outras pessoas o tratam por senhor F., o senhor F. ficaria furioso. «Mas quem é que vocês pensam que eu sou? Alguma personagem do Gonçalo M. Tavares?», perguntaria, aos berros. Depois, de chapéu na cabeça, guarda-chuva na mão, sairia para a rua, encolhendo os ombros e murmurando impropérios.

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O senhor F. gosta muito de poucas coisas e gosta pouco de muitas. Quais as poucas coisas de que gosta muito e quais as muitas coisas de que gosta pouco, eis o que se torna difícil de determinar – sobretudo porque falar nisso é justamente uma das muitas coisas de que o senhor F. gosta pouco.

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O senhor F., em tempos, foi um excelente nadador. Bruços, crawl, mariposa, costas – dominava os vários estilos. Hoje o senhor F. continua a frequentar piscinas, mas fica na bancada, a ver pessoas de todas as idades, com as suas toucas coloridas, avançando a diferentes ritmos nas várias pistas, separadas por fios com flutuadores. Se perguntarem ao senhor F. por que razão já não vai para dentro de água, ele responderá com evasivas. A verdade é que o senhor F. aprecia sobretudo os movimentos pendulares dos corpos que vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm através do feérico brilho azul da piscina. Se insistirem muito, ele explicará: «Prefiro assistir aos movimentos pendulares do que ser eu próprio um pêndulo.»

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O senhor F. frequenta livrarias às terças e quintas. Às segundas, quartas e sextas, bibliotecas. Nas livrarias, faz listas das obras que gostaria de comprar. Nas bibliotecas, lê os livros que em tempos gostaria de ter comprado. Ao fim-de-semana fica em casa, entretido com jornais e revistas.

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O senhor F. considera que a cinefilia exige solidão. Quando um amigo o convida para a matinée, ele desculpa-se com tarefas de última hora e vai à noite. Quando a namorada sugere um determinado filme em sessão nocturna (o filme que ela quer mesmo, mesmo ver, e nenhum outro), adia a resposta, mete-se no cinema logo a seguir ao almoço e à saída responde com uma SMS: «Não vai dar, querida, esse já vi.»

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O senhor F. sente-se mal nos supermercados. Na verdade, o senhor F. sente-se mal em quase todos os lugares, mas particularmente nos supermercados. A aflição começa com a escolha do carrinho. O senhor F. acha que as compras só podem correr mal, vão correr inevitavelmente mal, se o carrinho não estiver em óptimas condições. Por isso experimenta vários até encontrar o perfeito (com as rodas oleadas, sem sacos do cliente anterior, impecavelmente limpo). Mas o carrinho perfeito muitas vezes não existe. Ou então está no fundo da série de carrinhos enganchados uns nos outros. Nas poucas vezes em que encontra o carrinho perfeito e entra com ele no dédalo do supermercado, depara-se com um problema ainda mais bicudo. Que percurso seguir? Começa-se pela fruta, passa-se depois ao talho, à charcutaria, à secção das bebidas e acaba-se na área dos produtos de limpeza, ou é ao contrário? Certeza, só uma: os congelados, por razões óbvias, devem ser a última paragem antes de seguir para a caixa. Mas um homem, mesmo um homem coriáceo e abnegado como o senhor F., não se pode agarrar a uma única certeza. Por isso o senhor F. acaba por retroceder, deixando o carrinho escolhido com tanto critério no parque de estacionamento (nem sequer recupera a moeda), e faz as suas compras na mercearia do bairro.

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O senhor F. é um melómano a sério, daqueles que considera a música tocada ao vivo insubstituível. As gravações, sejam elas analógicas ou digitais, exigem sempre uma reprodução mecânica em que há sons que ficam pelo caminho e para ele, purista como é, se um som se perde, um ínfimo som que seja, a música torna-se incompleta, amputada como a Vénus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, e deixa de valer a pena. Se um dia ganhasse a lotaria, o senhor F. talvez se dispusesse a pagar bom dinheiro a um quarteto de cordas para que este subisse os instrumentos até ao seu quinto andar, sem elevador (coitado do violoncelista), de forma a proporcionar-lhe, em condições acústicas ideais, a fruição das obras mais extraordinárias de Schubert, Beethoven e Béla Bartók. Como provavelmente nunca ganhará a lotaria, nem qualquer outro jogo de azar, o senhor F., que também não tem dinheiro para comprar as assinaturas das grandes salas de concerto e ópera, contenta-se em procurar pela cidade os jardins em que os estudantes do Conservatório tocam de graça para a população.

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O senhor F. admira muito os funcionários das Finanças. Ao contrário dos outros contribuintes, acabrunhados enquanto esperam como reses em fila para o matadouro, temerosos das multas ou silenciosamente fervendo de indignação diante da máquina do Estado (especialista em apropriar-se de uma fatia generosa dos seus rendimentos), ao contrário de toda a gente que protesta mesmo quando não tem razão nenhuma para protestar, o senhor F. sente-se na repartição de Finanças como peixe na água. «A burocracia, quando bem exercida, é um espectáculo admirável», pensa ele. E deixa-se estar, deliciado, a assistir à consulta das matrizes prediais e a ouvir o som dos carimbos, sem sequer tirar senha porque na verdade não tem nenhum assunto para tratar ali.

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O senhor F. fala muito com os seus botões. Levanta-se do sofá, vai ao armário do quarto buscar a caixa de costura, pousa-a em cima da mesa da sala, abre-a e tira lá de dentro vários saquinhos de plástico com os botões, separados por cores e tamanhos. Assim que ficam todos alinhados em cima da toalha de linho que foi da sua trisavó materna, começa a falar e nunca mais se cala.

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O senhor F. só assistiu a um jogo de futebol na vida – e foi por engano. Era Fevereiro, estava frio e o senhor F. saiu à rua com um cachecol de lã amarelo e vermelho. No momento em que passava junto a um estádio, cruzou-se com dezenas de adeptos que envergavam cachecóis amarelos e vermelhos. Havia adeptos à sua frente, atrás de si e dos lados. De repente, sem perceber bem como, ficou no meio daquela multidão que se dirigia para os torniquetes, abertos naquele dia para que toda a gente apoiasse a equipa num dos jogos mais decisivos da temporada. O senhor F. assistiu à partida no meio de uma claque ululante, que exibia faixas, gritava os cânticos, rebentava petardos. Mesmo sem perceber nada do que acontecia sobre a relva, o senhor F. ficou satisfeito com o espectáculo. No fim, eufórico, um dos adeptos dos cachecóis amarelos e vermelhos deu-lhe uma cotovelada amistosa: «Então, foi bom, não foi?» Ao que o senhor F. respondeu: «Foi bom, sim senhor, foi muito bom, mas continuo a preferir a dança clássica.»

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O senhor F. desenvolveu, com os anos, um certo medo das alturas. Mas não tem sempre medo. Umas vezes tem, outras vezes não tem. Depende, justamente, das alturas.

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O senhor F. queria muito escrever um romance. Para ganhar rotinas de escrita, um certo embalo, uma certa disciplina, decidiu escrever mil palavras todos os dias, durante um mês. De início, alcançava o objectivo diário com relativa facilidade, numa hora e meia, duas no máximo. Mas a partir de certo momento o exercício tornou-se penoso. O que fora uma alegria, era agora um sacrifício. Já não era ele que escrevia as mil palavras, eram as mil palavras que o escreviam a ele. Quando apagou do computador os textos tão esforçadamente arrancados à sua escassa imaginação, o senhor F. pensou que ia sentir pena, desânimo, arrependimento. O que sentiu foi alívio das ilusões desfeitas.

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O senhor F. é muito friorento, mesmo no Verão. É por isso que anda sempre com um casaco de malha e o seu cachecol de lã amarelo e vermelho. Dito isto, não se pode acusar o senhor F. de insensibilidade absoluta às condições meteorológicas quando escolhe o seu guarda-roupa. Nos dias em que os termómetros se aproximam dos quarenta graus centígrados, o senhor F. não deixa de usar o seu cachecol de lã amarelo e vermelho, mas deixa cair o casaco de malha, saindo para a rua, ó ousadia, em camisa – uma camisa de mangas compridas, azul escura, com o colarinho abotoado, claro.

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O senhor F. indigna-se facilmente. Se a indignação for muito grande, pega num caixote de madeira, vai até à esquina da rua e imita os oradores londrinos do Speakers Corner, lançando-se em jeremiadas que podem durar até cinco horas. Se a indignação for moderada, faz o percurso das mercearias do bairro, começando sempre as suas queixas com um vocativo: «Ó dona Albertina, então já viu isto?»; «Ó senhor Alfredo, eu sei que parece mentira mas…»; «Ó dona Belinha, a senhora não vai acreditar no que acabei de ouvir no ‘Jornal da Tarde’…»; etc. Se a indignação for pequena, o senhor F. escreve mais um dos seus posts crípticos, publicados no seu blogue anónimo e completamente desconhecido, cujas únicas visitas são as que faz todas as noites para confirmar que ainda continua a existir (o blogue e ele próprio).

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O senhor F. deixou de ter namorada. Ou melhor, a namorada do senhor F. é que deixou de o ter a ele. Abandonou-o. O senhor F. ficou de rastos e transporta uma tristeza no peito semelhante a uma bomba-relógio programada para explodir de minuto a minuto. Quando o senhor F. perguntou à namorada «porquê?», ela não lhe soube responder. Ou melhor, respondeu-lhe que havia um problema grave de desfasamento. Para ela, o que mais importava era o futuro, o que estava para vir (e, no futuro, ela não conseguia imaginar-se ao lado do senhor F.). Para o senhor F., o importante era o presente, o que estava a acontecer agora (e, no presente, ele não conseguia imaginar-se sem a namorada junto de si). Fora esta discrepância, o entendimento entre os dois era perfeito, uma espécie de milagre do amor, melhor ainda do que nos livros. Mas a namorada, por muito que gostasse do senhor F., era incapaz de lidar com o tal desfasamento, com o tal absurdo medo do futuro. E um dia desapareceu mesmo. O senhor F., que se estava nas tintas para o futuro, sentiu o presente a ser-lhe arrancado como se fosse uma perna ou um braço, e transporta agora o passado como um tesouro cruel que lhe dá cabo das costas.

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O senhor F. juntou muitos mapas ao longo da vida. Coleccioná-los é a sua maior obsessão. Tem mapas de todos os tamanhos e feitios. Mapas de ilhas remotas, minúsculas e desabitadas. Mapas das estradas que são como sistemas circulatórios de um país ou de um continente inteiro. Mapas históricos com geografia ainda imprecisa, áreas vazias de terra incognita, monstros na orla do planeta e baleias de cauda escamosa no meio do mar. Mapas dos grandes desertos com a posição relativa das dunas no momento em que o mapa se imprimiu e a sua provável evolução (a tracejado). Mapas de grandes capitais que ocupam uma sala inteira, com os bairros identificados por cores diferentes, mas também os prédios, um a um, e os pátios, os saguões, as garagens subterrâneas, os bancos dos jardins, as antenas, os quiosques, os ecopontos, as sarjetas, os toldos dos cafés, os baloiços dos parques infantis, os parquímetros. Mapas de glaciares, desactualizados ainda antes de terem saído da gráfica, mas belíssimos nos seus vários tons de branco, cinzento e azul. Mapas atravessados por fronteiras que já não existem. Mapas económicos. Mapas demográficos. Mapas de terras que nunca existiram a não ser na imaginação de certos escritores. E o mapa mais importante de todos: o mapa das dezenas de gavetas do seu arquivo de mapas, sem o qual não conseguiria chegar de forma tão expedita ao mapa que lhe interessa num determinado momento.

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O senhor F. enerva-se muito a ler jornais. Todos os sábados e domingos, recorta os artigos com erros factuais ou ortográficos, assinala-os, corrige-os, e cola-os em folhas A4 brancas. Depois, sai discretamente de madrugada, quando ninguém passa na rua, e vai afixando esses papéis à porta das redacções que deixaram passar os inadmissíveis erros. Já houve, aliás, reportagens feitas pelos jornais visados sobre este justiceiro anónimo. Mesmo actuando pela calada, o senhor F. devia sentir orgulho do seu cada vez mais mencionado e influente jornal de parede. O problema é que ele descobre alguns erros nas próprias denúncias que escreve. Ou seja, em vez de orgulho, o que ele sente é vontade de fazer um segundo jornal de parede que corrija o seu primeiro jornal de parede, sabendo perfeitamente que ao fazê-lo só estaria a abrir a porta a um terceiro jornal de parede, etc. «Não tenho vida para isto», resume o senhor F.

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O senhor F. é um visitante frequente do Jardim Zoológico. Nunca espreita as jaulas dos tigres, nem o fosso dos leões, nem o espaço dos macacos, nem as girafas, nem os elefantes, nem as crias do rinoceronte branco, nem o espectáculo com golfinhos que voam a grande altura e focas que batem palmas. Assim que atravessa o portão, o senhor F. dirige-se logo para o Reptilário, onde fica tardes inteiras junto a uma das enormes caixas de vidro, à espera de ouvir a música tão discreta e preciosa da cascavel.

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O senhor F. tentou suicidar-se três vezes. Uma corda à volta da garganta. Comprimidos. Um salto da janela. A corda partiu-se. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago. O toldo de um café e um colchão abandonado na rua amorteceram-lhe a queda. Morrer é mais complicado do que parece à primeira vista. Resignado, o senhor F. costuma dizer que se à terceira não foi de vez, então é porque não vale a pena tentar a quarta.

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O senhor F. detesta finais infelizes (a tragédia grega), mas detesta mais ainda finais felizes (Hollywood). O que o senhor F. detesta mesmo é a própria ideia de final. Para ele, o final é o momento em que chegamos ao futuro e acaba tudo. Se dependesse do senhor F., nunca haveria final para nada, muito menos para a forma como ele, senhor F., mal ou bem, se vai inscrevendo no mundo. É por isso que aproveito o facto de o senhor F. ter ido à repartição de Finanças para, à sua revelia… enfim, vocês sabem.



Comentários

2 Responses to “O senhor F.”

  1. gafanhoto on Agosto 23rd, 2012 10:45

    Espero que nenhum dos dois me leve a mal; enquanto li o conto, o João Gonçalves (portugal dos pequeninos) foi o Senhor F.

  2. Felipe Schuery on Agosto 23rd, 2012 13:13

    O Senhor F vive a querer ser Senhor X, mas tem medo de nunca voltar a ser o Senhor F outra vez.

    http://www.youtube.com/watch?v=fnpxQb_PazY

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges