Samsa

Gregor Samsa sonhava muitas vezes com insectos. Eram sonhos agradáveis, em que ele saía pelas ruas a exibir a sua bela carapaça e sucumbia ao apelo das feromonas, entregando-se à lascívia e à fornicação com fêmeas em cujos élitros se reflectia o arco-íris. O problema era de manhã. Na casa de banho, ao espalhar a espuma na cara, via-se ao espelho e deparava com o rosto anguloso daquele colega esquisito lá da repartição, o Franz. Era como se durante a noite se tivesse transformado naquele homenzinho opaco e vagamente sinistro. Depois de se barbear, o espelho devolvia-lhe o verdadeiro rosto: arredondado, lustroso, banal. Mas os pequenos golpes da navalha, na bochecha ou no queixo (mesmo por baixo do lábio inferior), prolongavam pelo dia fora o desconforto da sensação matinal, semelhantes a marcas feitas por um escultor que hesitasse e, tendo já iniciado a obra, preferisse deixar o trabalho para mais tarde.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges