Importa-se que o leve?

Do Luís M. Faria, jornalista do Expresso e companheiro de estrada (no famoso eixo Lisboa-Laveiras), recebi este texto itálico, à boa maneira do antigo BdE, sobre o fenómeno dos «livros humanos» (já referido aqui):

IMPORTA-SE QUE O LEVE?
Em tempos remotos, um escritor chamado Graham Greene (ou Graham Green, na versão canónica do Diário de Notícias) publicou um livro intitulado May I Borrow Your Husband? A ideia de emprestar gente tem precedentes ilustres e aplicações bastante diversas. Uma das versões mais recentes, criada nos países nórdicos e actualmente a espalhar-se com apoio oficial, visa combater fenómenos de discriminação. A ideia é que pessoas representativas de categorias mal aceites ou compreendidas na sociedade – muçulmanos, homossexuais, toxicodependentes, etc – se disponibilizem para contar as suas experiências a quem os quiser requisitar. Aceite o pedido, o requisitante tem direito a meia-hora de conversa, podendo fazer as perguntas relevantes que entender. Meia-hora dá para esclarecer muitas dúvidas e alterar o nível da compreensão humana. Imagina-se que as obrigações habituais – devolver em bom estado, não utilizar o objecto para fins que não os autorizados, não fazer cópias, etc – se apliquem plenamente. Utilizações do tipo que Greene teria em mente não constam do regulamento. Mas falando a sério, parece uma forma ideal de permitir a qualquer pessoa acesso fácil ao maior capital sub-utilizado das sociedades modernas: a experiência alheia. Outro dia, num programa da BBC, o homem que organizou um grupo desses na Grã-Bretanha contava o sucesso que tem sido. Como antigo jovem delinquente, ele próprio já foi requisitado umas quantas vezes por pais preocupados, e não só.
Luís Faria



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges