Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio

A matrícula

De repente, aquela ideia. Melhor dito, aquela formulação. Essa, que lhe vinha sempre à mente, para sempre de novo se esfumar.
Caminhando, segurando a pasta, procurou nervoso a esferográfica, mais o blocozinho, que nunca largava. Ainda teve que bordejar um carro ali estacionado, até meteu um sapato na lama. Mas tudo preferível a fugir-lhe de novo a ideia, melhor dito, a formulação.
Parou na beirinha do passeio. Prudentemente, escreveu logo duas palavras centrais da coisa. E passou, absorto, o olhar em volta.
Foi quando recebeu a primeira bala no estômago. Apercebeu-se de que aquilo viera do carro, parado a metros. Olhou em pânico, viu ali um movimento e logo veio o segundo aguilhão, um tudo-nada mais abaixo. Fechou os olhos, largou a pasta, a esferográfica, o blocozinho, e sentiu-se tombando, tombando…
Não chegou a perceber aquela estupidez de pôr-se a anotar uma matrícula de mafiosos.
Fernando Venâncio



Comentários

One Response to “Mais uma micronarrativa de Fernando Venâncio”

  1. J.Urbano on Junho 14th, 2009 21:09

    Se um miserável assaltante de bombas de gasolina não anda senão em carros furtados, desde quando os mafiosos se preocupam com anotadores de matriculas de automoveis?…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges