Margarida Vale de Gato sobre António Poppe

«TODOS OS MEIOS SENTIDOS DÃO À LUZ

O António é um meu amigo admirado, não só porque eu o admiro como porque ele também se admira, isto é, espanta-se amiúde. A amizade é uma admiração, e desenvolvendo mais a atenção a estes sentidos presentes das palavras nem precisamos de ter tantas, embora às vezes também seja bom termos uma reserva para variarmos e a mesma coisa passar a ser nova, o que também tem a ver com este livro. A nossa – amizade, admiração – nem precisou até agora de ser longa, mas um dia vai ser. Comecei a conhecer o Livro, e o António também, um através do outro, porque quem o conhece lembra sempre que tantas das suas elocuções são dizeres do livro, tantas também dizeres de outros livros. “A memória é uma surpresa na realidade.”
Quando, pois, o António me convidou para apresentar este livro enchi-me de orgulho e de miaúfa, porque o que aqui temos não é nada fácil de articular. Quis preparar-me e fazer toda a justiça que me permite a minha qualidade de professora de literatura e fiz o que faria qualquer académica que se preze, mergulhando no que podia ser o filão da poética do Poppe, tentando traçar-lhe um percurso, e até fases, começando pelo primeiro livro publicado – ao que ele me adiantou trabalho, dizendo que, sendo um livro onde já desde logo houve a sobreposição do desenho ao poema, como não podia deixar de ser no seu espírito plástico, o fizera também para treinar a mão, procurando que o guiassem as palavras que amava ou que o desatinavam em escritos dos outros. Posto isto, ainda que não achasse a ligação toda com Juan Abad, tipógrafo tornado dramaturgo a escrever zarzuelas em plena revolução das Filipinas no final do século XIX (falha de ligação que provavelmente é só despiste meu, mas se calhar está nos versos finais de “Um alfaiate traça na manga o corte / eu olho por dentro uma velha maneira de falar com a morte”), optei pela leviandade de passar por cima de tantos anos de estudo de teoria literária em favor da crítica impressionista que me levasse pelo coração à ponte entre Torre de Juan Abad e o Livro da Luz. E escrevi isto:

Todos os meios sentidos dão à luz. O A. escreve a ler,
escreve o Helder, escreve o Quevedo, escreve o Auden,
escreve o Pau-Chi, escreve a sorte de zarzuelas e castelos
inundando Juan Abad, e desenha montanhas moldes de
inversas cúpulas e escreve e repete e ouve o Cintra
e desenha o Belo e o escuro, o Belo ainda estava lá
no escuro, cada sentido com vários meios, e o sexto,
a luz e o seio, sentido sabor de sabedoria com gosto,
verso de saber que é verso do saber, anagrama de servo,
“de coral em vértebra / uma existência livre de vontade”.
Então o António vai a ver e traça sobre o que viu, cola
o rosto no verso, a imagem na imagem sobe às letras coradas,
a escrita no carvão e na água, a pintura com os tímpanos,
a fotografia do rosto devém caracter-Fonte de muitos membros,
uma cauda a varrer um útero aberto como grandes olhos.

Concretamente sobre o livro em apreço, e pretendendo voltar aos carris da crítica literária, digo que quis estruturar a que se segue sobre quatro palavras de significantes concatenados, roubando ao Poppe a técnica da mnemónica:

Rasura / Satura / Sutura / Sutra
O António Poppe é um rapaz, além de lido e lindo, formado em Belas-Artes pelo School of the Art Institute of Chicago. Será tentador, talvez, à primeira vista, relacionar o seu trabalho de risco com uma certa onda da rasura que terá emergido nas artes plásticas por este nosso pós-modernismo tardio adentro, com o beneplácito de Derrida e sequazes, da desconstrução, extinção e marca ou traço da tradição fragmentada e desmembrada. As pistas da citação e elisão artísticas tornam-se, porém, enganosas. Possivelmente, para a brasa da sardinha dos filósofos do pós-moderno, seria mais pertinente chamar aqui a dobra deleuziana, a pli que vai da inflexão à inclusão, e a que eu acho que o António, quando ainda lhe agrada o barroco, pisca o olho em versos como “árvore de letras e vento / plica e explica”. Mas já o António, se rasura não risca, dobra, e a dobra que é dele e não do Deleuze tende à sutura, que com mais uma dobra se torna em sutra, texto condensado para melhor se memorizar, o que também se aplica ao António, mas não o explica. Ou então sutra, escrito num livro de folhas de palmeira cozidas por um fio, que sempre parece tecer mais sentido com “árvore de folhas e vento”. Cosida pela mão, a sutura não fecha, nem sequer completamente cicatriza, tem poros, “de mão dada à pele”. Aliás, o António uma vez ensinou-me uma coisa de deixar esbugalhada boa parte da poesia portuguesa: resistir a procurar o fecho do poema, guardar-lhe a vocação de abrir.

Venho com esta conversa da rasura, porque estive Quarta-feira passada no lançamento de um livro onde se falou muito da técnica da rasura, tratando-se no caso de um livro de meu companheiro de investigação, José Duarte, que se meteu a riscar nada mais do que a Moby Dick, deixando apenas umas palavras aqui e ali, escolhidas no entanto por serem fortemente significantes, e que permitiram tornar o catrapázio de Melville num livro de poemas de 88 páginas, com um resultado singular e em muitos casos bastante pungente. Introduzi a rasura da poesia no Google (uma outra técnica, que gostava de dominar tanto como o Manso) e descobri que neste momento, no Illinois, estado fronteiro ao Michigan da Chicago onde o Poppe cursou, uma senhora chamada Julie Judkins está a dar workshops de poemas de rasura sob o título “Uma Poesia da Ausência”, e que, na Wikipedia: “Erasure poetry is a form of found poetry created by erasing words from an existing text”. Foi daí que concluí também que a poesia do Poppe não é uma poesia da rasura, pois não só não pretende limitar as suas palavras dentro das escolhas lexicais de textos anteriores, como a sua sutura não se satura de esgotamento. Sobretudo, pouca poesia será tanto de presença como a sua, de palavras que se nos apresentam e pairam ainda, simultaneamente circundadas e livres, de contextos anteriores. Tanto há para ler num verso como “Aconteceu a corda” – incitação ao despertar, à vibração, à fibra do coração, corações ao alto, o nosso coração está em Deus, livre tradução, sursum corda. Onde quer que o António tenha andado para achar os caminhos de um verso como “Aconteceu a corda”, e onde quer que tenha lido e visto e decorado, o risco dele, neste livro, a corda que cora e se espalha sobre o escrito, não é sobre o dado ou encontrado nos outros, mas sobre o que dá também, verso chegado a si, entrado no poema. O risco entra, pois, no poema, não o oblitera.
Aconteceu a corda, corações ao alto. O coração do António até pode estar no nada como estar em Deus, mas não está quieto, não tomemos este como um livro de plácida contemplação, contemplação nele é comunhão ativa, tantas vezes é tensão e, todas as vezes, a tensão (atenção!). No livro estão os mestres e os irmãos, os companheiros de viagem e os outros da paisagem, o pai e a filha, a cora, a mãe, o mundo, os seus fundos. Não apaga, sobrepõe, e o que está em cima é deferente para com o que está em baixo, não procura exatamente precedência, embora se preocupe de algum modo com o primário, forte força telúrica e dos elementos que se achem expostos, a nossos sentidos todos atentos. Nada mais errado, parece-me, do que ver no seu gesto desconstrução, senão assimilação, dirigida, lá está ela, por essa atenção que aprendeu na experiência e nos mestres do Oriente e do deserto (é pela duna que se inicia, ou se pode ver numa das leituras iniciar este livro, e a duna está distante dos aterros e dos buracos negros), experiência e mestres do Oriente e do deserto, perto da fonte da luz, a quem presta homenagem em vários degraus deste livro, seja por referências, colagens, desenhos ou fotos, além de – não esquecer – a proximidade mântrica da voz. Já a ouviremos, espero.
Há uns poucos dias, a generosidade do António presenteou-me com um caderno, “Memória Artesanal”, que veio dos anos da primeira idade adulta, escrito com uma caneta de tinta dourada, mais perto do abstrato da luz do que da matéria de cor corada que no Livro da Luz chega a tocar e não raro faz canto. Mas a memória surpreende na realidade e em “memória artesanal” encontrei já pedaços de versões do livro, com certo estrondo, medita e se dilata, mnemónicas, “uterina sábia colmeia tímpano anatomia prima”. São de mil plateias os degraus que dimanam do livro, os livros que a ele emanam. No meu, um brinde extra-texto, papel vegetal numerado, desdobrando-se da colagem, caneta preta, cópia em castelhano, calígrafo e palavras em esferográfica no verso da foto de Ramana Maharshi. Googlo e traduzo. “Nascido em 1879, no seio de uma família brâmane falante de Tamil, Ramana Maharshi parte em 1896, aos dezasseis anos e após a morte do pai, numa longa viagem e experiência de se acordar (self-awakening) para a montanha sagrada de Arunachala, onde permaneceu no cultivo do desapego além de todos os limites até à sua morte, em 1950. Sentar-se um tempo na sua santa presença era submergir na paz total. A forma mais pura do seu ensinamento era o poderoso silêncio que da sua presença irradiava, aplacando todos os espíritos que com ele se sintonizavam. Aquiescia no ensinamento verbal somente para benefício daqueles que não podiam compreender o seu silêncio.” Pessoalmente, sentar-me na presença do António é acolher o silêncio, mas sentar-me na presença das suas folhas, pranchas do traço e do risco que se iluminam, é acolher também todos os mil e mil ensinamentos, ensinamentos que se podem procurar através de bites de Google, mas que eu chego a crer também que de profecias tratam, não só verbais como visuais, vocais, tácteis. É possível que se encaminhem para o silêncio e para a brancura, mas para mim tendo a ver mais do que o branco que absorve todo o palimpsesto. Sinestesia multimediática, é uma luz de muito coração e muita cor. Se o António quisesse riscar a branco se calhar tinha usado líquido corretor. Mas eu pelo menos não creio que haja aqui outro apagamento senão o de si, a iluminura é africana e no poema entra-se a vermelho, letras coradas que só substituem na medida em que adicionam: “trouxeram-me aquela que soma e cora (….) / trouxeram-me aquela que soma o nada / derramá-lo-ás estima / ó conciliante.” Ou seja, com tudo isto o que eu quero dizer, é que, não necessariamente em paz com a história, mas já acima e contrariando qualquer asfixia ou saturação ou obsolescência ou sentimento rasteiro de crise e esgotamento que não pode fazer mais do que esta moinha em que vivemos, e que nos desgasta sempre muito mais do que a tentamos desgastar, este livro (humildemente entrado, lembre-se, na segunda fase de poeta, a de profeta) não tem pejo de tudo absorver e se encher, para que tudo se solte e abra, e se apresente novo, com uma graça afinal não tão difícil neste Solstício. E com tudo isto, também, não falei da voz, e de este livro ser para ser ouvido, sobretudo pelo Poppe, que sabe de cor e de cora as suas versões passadas e saberá as versões futuras, consoante se lhe apresentam. Palavras coradas. Obrigada e força, António Poppe.
Margarida Vale de Gato»

[Texto lido na apresentação de Livro da Luz, de António Poppe (Edições Documenta), a 21 de Dezembro de 2012]



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