O ‘caso João Bonifácio’ segundo Pedro Mexia

O meu amigo Pedro Mexia pediu espaço, aqui no Bibliotecário de Babel, para dizer o que pensa da recente polémica que envolveu o crítico musical João Bonifácio e, sobretudo, para explicar como se posiciona perante a resposta que a essa polémica foi dada pela direcção do jornal Público. Vindo o pedido de quem vem, nem hesitei na resposta. Aproveito para dizer que subscrevo, palavra por palavra, o texto que se segue:

João Bonifácio escreveu no Público uma crítica sobre o concerto dos Killers no Restelo. O texto online suscitou grande número de comentários (mais de duzentos, da última vez que abri a página), quase todos escandalizados, muitos deles insultuosos. Os fãs dos Killers não admitiam a opinião negativa. E o Belenenses protestou oficialmente por causa de uma suposta ofensa ao clube.
Toda a gente é livre de se sentir ofendida e de protestar. Mas qualquer pessoa não excessivamente fanatizada percebe que João Bonifácio fez uma piada sobre os adeptos de um clube e escreveu uma crítica a um concerto de uma banda. Um texto discutível, felizmente, mas um texto normal.
Infelizmente, o
Público (que é o jornal onde eu escrevo), em editorial, pediu desculpa ao Belenenses. Pela mesma lógica, podia também ter pedido desculpa aos fãs dos Killers. E aqui é que se começa a desenhar um precedente preocupante.
A crítica implica liberdade em matéria opinativa. Um jornal não tem que concordar com as opiniões dos seus críticos, mas quando as publica tem que as proteger, excepto quando ultrapassam determinados limites legais ou éticos. Não foi o caso, pelo que não se percebe o excesso de zelo.
Seria muito mau sinal se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos protestos. Seria péssimo se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos insultos.

Pedro Mexia



Comentários

22 Responses to “O ‘caso João Bonifácio’ segundo Pedro Mexia”

  1. Senhor Palomar on Julho 28th, 2009 20:54

    Caro JMS e PM,
    um abraço aos dois. O Senhor Palomar tomou a liberdade de fazer um link para este post, bem como deixar a sua posição de solidariedade para com João Bonifácio.

    http://senhorpalomar.blogspot.com/2009/07/e-por-estas-e-por-outras-que-o-jornal.html

  2. José Catarino on Julho 28th, 2009 21:55

    Vê-se, mais uma vez, que quem se mete com o futebol apanha. É, talvez, a mais sagrada das vacas sagradas ocidentais.

  3. jaa on Julho 28th, 2009 22:12

    Totalmente de acordo. O Público, que suportou estoicamente os ataques de Sócrates e do PS, cedeu perante o Belenenses. Triste.

    (Ainda assim, fico aliviado por não ter pedido desculpa aos The Killers ou aos seus fãs: encolher os ombros com resignação e pedir desculpa aos velhinhos do Restelo é uma coisa; pedir desculpa ao Flores, outra completamente diferente.)

  4. Maria João Freire de Andrade on Julho 28th, 2009 22:22

    Li o artigo e confesso que lhe achei a maior das piadas. Aliás, até o mostrei a várias pessoas que estiveram presentes no concerto e que concordaram em absoluto com a opinião do João Bonifácio, incluindo alguns fãs dos The Killers. Não me pareceu ofensivo nem para o clube nem para os The Killer, apenas me pareceu um artigo bem escrito, bem pensado e, sinceramente, muito engraçado. O meu clube é mais verde e talvez prefira um Getz, mas o Estádio do Restelo não deixa de ter uma esplêndida vista e há algumas músicas dos The Killer que até me agradam. Quanto aos fanáticos dos clubes, já estamos habituados; agora os fãs dos The Killer ofenderem-se? Curioso, pois dias antes no nosso país vizinho, Brendon Flowers não pôde estar presente numa entrevista efectuada por um canal televisivo português por se sentir “indisposto” (embora pouco antes tivesse dado uma entrevista a uma cadeia televisiva de outro país). Se fosse fã, decerto que isso me pareceria muito mais ofensivo. Mas pronto! A cada um a sua cor e a sua flor. Daqui o meu abraço sincero e amigo para o João Bonifácio. E cá fico à espera de mais artigos cheios de piada, mesmo que diga que os azulejos do Alvaláxia parecem uma casa de banho ou que o vestido da Diana Krall não combina com os sapatos

  5. Sara on Julho 29th, 2009 2:30

    Concordo em pleno sobre o pedido de desculpas ao Belenenses ser um tanto ou quanto descabido. No entanto, não acho que um jornal deva ser autista e ignorar o feedback que lhe chega. Quando muito, o Público devia pedir desculpa por ter mandado ao festival um jornalista contrariado, e, já agora, pedir ao jornalista João Bonifácio que fosse ao dicionário ver o significado da palavra “humildade”. Se lerem com atenção as criticas feitas ao texto, poderão verificar que, na esmagadora maioria dos casos, não se trata de mau “perder” de fãs amuados dos The Killers, mas sim da desilusão que é ler num jornal respeitado como o Público um texto tão pobre e carregado de superioridade tosca. E aposto a minha cabeça em como se tivessem mandado para cobrir o festival um estagiário / colaborador, o resultado tinha sido menos parcial, mais focado no que interessa – a música – , enfim, bem melhor…

  6. Manuel Pacheco on Julho 29th, 2009 8:17

    Não sei o que tem a ver um espectáculo de variedades e, um estádio de futebol em que o jornalista diz que tem sempre pouco público a ver jogos. Faz-me lembrar um sr. que queria comprar um canário, que cantasse muito e bem. Chegado ao aviário disse ao dono ao que ia. Foi-lhe mostrado o tal canário que cantava bem, dizendo o cliente que o não queria por lhe faltar uma perna. Ao que o dono do áviário respoendeu. O sr quer um canário para cantar ou dançar.
    Cumprimentos

  7. Alexandra Pinto on Julho 29th, 2009 8:36

    Oh Manuel Pacheco, é uma analogia, uma comparação. Não lhe parece que o jornalista quis “comparar” um estádio onde há idosos com a falta de “juventude” do festival”? Foi assim que eu o li. E, bem, espectáculo de variedades é que não era. Estive, infelizmente, presente no dito festival. Haverá possibilidade de pedir o dinehiro de volta? Por gostar dos Killer e querer vê-los ao vivo. Mas percebo o que o jornalista quis dizer. Vou a muitos concertos ao longo do ano, sobretudo no Verão, e naquele faltou muita da alegria que se vê nos outros. Não foram só os Killer que estiveram mal, os outros também não deram o seu melhor. A Duffy que é excelente, por exemplo, não é cantora para um festival daqueles. É uma cantora mais intimista, para um lugar mais pequeno. Mas tem de ser dita uma coisa. O espectáculo pode não ter sido o melhor, porque o público também não estava muito “animado”. E imagino que isso possa desmotivar. Os fãs dos Killer não são os fãs dos Metallica. Eu estava ao pé de um grupo que tinha vindo da zona de Coimbra, e que passaram mais tempo a mandar sms do que a ouvir o que quer que fosse. Mudei de sítio, e apanhei um casal de namorados numa animada discussão, muita pouca gente interessada no que se passava em palco. Por isso, o jornalista está correcto. De festival “jovem” teve muito pouco.

  8. Manuel Pacheco on Julho 29th, 2009 11:24

    Oh Alexandra Pinto, se é só uma comparação o jornalista dizia que um espectáculo desses não se devia realizar num estádio de futebol. Agora vir funalizar. Tem de receber as criticas e saber viver com elas, assim como quem vem em seu socorro.
    Cumprimentos.

  9. Alexandra Pinto on Julho 29th, 2009 11:30

    Então não seria uma comparação, né? Mas ninguém disse que ele não sabia receber as críticas. Os fãs do Beleneses e os fãs dos Killer é que parece que não as souberam receber. Aí é que está a questão.

  10. Manuel Pacheco on Julho 29th, 2009 11:51

    Menina, quando se sabe receber criticas não se fala mais no assunto. A não ser que se queira ser mais falado. Li e julgo que li correctamente que foi a direcção do Belenses, que exigiu ao Público um pedido de desculpas e não os seus fás. Gosto de falar para o que estou habilitado.
    Cumprimentos.

  11. Vasco Friedman on Julho 29th, 2009 12:44

    Que grande confusão. Fãs, estádios, Belenses, festivais. Não li o artigo, não fui ao festival, e nem gosto de futebol. Mas depois de tanta coisa, parece-me que se criou uma tempestade num copo de água. Como o senhor acima refere, quem parece que não gostou da crítica ao estádio foi a direcção do Belenses, que exigiu e recebeu as suas desculpas. As bandas estão-se marimbando, já nem se devem lembrar onde fica Portugal. E agora, toda a gente vai e quer ler o artigo. Ou seja, como são mais aqueles que não são do Belenses do que aqueles que o são, como são mais os que não foram ao concerto do que aqueles que foram, como são mais os que não leram o artigo do que aqueles que os leram, a imagem que fica para aqueles que como eu não leram nem souberam de nada, é a seguinte: um dos nossos clubes da 1ª ou da 2ª Divisão resolveu mostrar-se ofendido por um simples artigo de opinião, que foi lido por um punhado de pessoas, e no qual parece que se fala do estádio. Por outras palavras, percebe-se que o fair-play do Belenses é nulo, e que o Público se deixa “amedrontar” por uma direcção clubística.

  12. MCS on Julho 29th, 2009 15:12

    Convém não esquecer que este mesmo jornal (‘Público’) defendeu que não se deviam pedir desculpas pelos cartoons sobre o Islão publicados num jornal dinamarquês. O ‘Público’ anda pelas ruas da amargura. Ou será que tem receio da tribo do futebol, mas não de alguns fanáticos islâmicos?

  13. Hugo on Julho 29th, 2009 16:25

    “O meu amigo Pedro Mexia pediu espaço, aqui no Bibliotecário de Babel (…) Vindo o pedido de quem vem, nem hesitei na resposta”.

    e fez mal. O que o Pedro Mexia tem que fazer é reabrir o Estado Civil, ou criar outro qualquer, em vez de andar por aí à boleia, que muita falta faz.

  14. Ana Matias on Julho 30th, 2009 16:21

    Também este texto do Pedro Mexia está desfocado da realidade. O editorial do Público pede desculpas porque a crítica e/ou opinião foi redigida num espaço de notícias. Ora, como não estava assinalada como “opinião” naturalmente que quem leu assumiu estar a ler uma notícias. Obviamente que aquele texto do J. Bonifácio era tudo menos uma notícia. Já agora também seria interessante que quem escreve tivesse uma pinga de bom senso na forma como escreve. Não é preciso ser mal educado para ser crítico. O texto do J. Bonifácio é do mais mal educado que se possa imaginar além de ser claramente ofensivo para com o Belenenses. Isto são factos e não especulações da minha parte acerca de liberdade de imprensa. Por isso o Público esteve bem a pedir desculpas. Porém imagino que os amigos do J. Bonifácio não tenham gostado das reacções. Seja como for as desculpas não se devem pedir mas ser evitadas. Se o J. Bonifácio agir assim na sua vida normal duvido que chegue ao natal intacto…

  15. Nuno on Agosto 1st, 2009 11:15

    Eu percebo a ideia do Pedro Mexia, mas pergunto o seguinte…
    Que tem o Belenenses a ver com o concerto?
    Quando é em Alvalade faz-se piadas sobre o Sporting?
    Reduzir um clube com quase 100 anos e milhares de adeptos (o sétimo com mais assistências em Portugal) a meia dúzia de velhinhos pode não ser ofensivo (já que não é desonra ser velhinho) mas é pelo menos depreciativo, jocoso e, sobretudo… falso.
    Os jornalistas devem informar com rigor. A opinião é subjectiva, mas os factos sobre os quais se opina não.
    Ele poderia ter dito que o Estádio do Restelo tem capacidade para 40 mil pessoas (lotação de 19 mil desde que foram colocadas cadeiras) e em média tem apenas 5 mil pessoas (dados oficiais).
    Claro, Pedro – que leio e admiro – que você não se preocupa com isso, pois não lhe é conhecida a profissão de jornalista. É comentador, opinador, seja o que for. Mas como pessoa inteligente que é, deverá perceber que os jornalistas se regem por regras definidas muito antes mesmo de o senhor Bonifácio ter seguido esta profissão.
    Mais: se calhar o senhor Bonifácio e o Público deveriam ter pedido desculpas não aos fãs de killers, mas a todos os leitores: e isto porque o texto dele é um chorrilho de palavras depreciativas. Os fãs dos killers são burros e primitivos porque saltam e gritam quando há música, a Brandi Carlile não gosta de música e os Mando Diao só fazem barulho, não têm música.
    Quem compra um jornal não quer saber do que gosta o senhor jornalista. Quer ler o que se passou. E nisso o jornalista falhou. Não disse que músicas foram tocadas, não falou dos problemas da organização – filas para comer e horas de espera para as senhoras irem ao wc – e se formos ver bem, analisou mais as carreiras dos músicos do que os concertos.
    O texto demonstra prepotência e – sobretudo – algo inadmissível para um crítico de música: entende que há música digna e indigna. A que ele ouve é digna. A indigna é a que enche um recinto para ver um festival e que tem em palco bandas que vendem milhões de exemplares de cada álbum.
    É claro que o Público deve pedir desculpa quando uma REPORTAGEM sai neste tom.
    É claro que o Público deve pedir desculpa quando um crítico se excede nas palavras e publica num jornal de referência um texto de REPORTAGEM que seria aceitável num blogue pessoal ou num café.
    E aceitável apenas porque não teria visibilidade.

  16. Nuno on Agosto 1st, 2009 11:18

    @Vasco Friedman: como é possível opinar sem ter lido o artigo!!!????

  17. Maria Gonçalves on Agosto 2nd, 2009 3:36

    Subscrevo as opiniões de Ana Matias e Nuno. E acrescento que o sr. João Bonifácio não tem carteira de jornalista, segundo o site da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista http://www.ccpj.pt/

  18. DCF on Agosto 3rd, 2009 5:45

    Bem, ao contrário do que li ali para cima, posso dizer que sou fã dos The Killers, dos Metallica (fui a ambos os concertos) e até simpatizo bastante com o Belenenses, tendo inclusivamente me dirigido ao estádio ver jogos deste clube mesmo quando não jogava lá a minha equipa.

    O que se passa com este artigo do João Bonifácio não é de ser contra este, aquele ou o outro; é tão só porque é mal escrito, tendencioso e redutor de toda uma audiência. Sente-se o autor a bufar durante o processo de escrita e mesmo durante o concerto. O João Bonifácio não está a fazer um favor a ninguém ao cobrir o festival, está a ser pago para isso como jornalista profissional que é. O que ele não percebe (e muita gente aqui também não, pelos vistos) é que quem está a fazer um favor a alguém são os leitores ao João (e ao Público também, já agora) e como não gostaram do texto, usaram o comentário como ferramenta de expressão da sua discórdia e desilusão de uma crónica / artigo de opinião fraco, muito fraco.

  19. Jorge Costa on Agosto 3rd, 2009 13:34

    Parece q

  20. Jorge Costa on Agosto 3rd, 2009 13:40

    Parece que para algumas pessoas “liberdade de expressão/opinião” é sinónimo de “autorização/direito de ofender”. Mas está a nossa sociedade quando achamos que a nossa liberdade é mais importante que a liberdade dos outros.
    O que o Sr. Bonifácio fez relativamento a um clube com 90 anos de história foi brejeirice despropositada e desajustada, ou não estivesse ele ali para “falar” de musica.
    Não assumir o seu despropósito, é apenas uma prova da sua má formação, me desculpem os seus amigos….

  21. Mário on Agosto 3rd, 2009 18:25

    Dois comentários com graça no site do Público:

    Ainda não parei de rir com isto: João Bonifácio n’o Público, a 27 de Junho de 2007, sobre o concerto de Aimee Mann “quase todas as canções foram belas e nem uma palha buliu: se o concerto começou calmo, bem calminho acabou.” Agora rimos nós: o Belenenses pode ter velhinhos, mas quem usa bengalas é o João Bonifácio

    22.07.2009 – 23h20 – Paulo Assunção, Almada
    Sr. “Jornalista”, relacionar a afluência de um jogo de futebol com o sucesso ou insucesso de um festival musical parece-me errado, a não ser que essa relação seja baseada no espaço ou em problemas de segurança. Repare no trabalho jornalístico que se segue. “Toda a gente que lê jornais com um mínimo de regularidade conhece a constante falta de qualidade do Público. O jornal é publicado e há duas dezenas de pessoas que o compram, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a idéia de reduzir os salários naquele mesmo jornal quase parece uma acção de beneficência.” Aprendeu alguma coisa, ou escrito assim já não tem graça?

  22. Joel Neto on Agosto 7th, 2009 8:05

    Absolutamente de acordo, Mexia. Não se percebe sequer como é que isto pode ser matéria de debate – e o pedido de desculpas do Público, naturalmente, desconcerta qualquer um. Um abraço aos dois. JN

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