Uma micronarrativa de Fernando Venâncio

Recebi-a por e-mail. «É homenagem, pois claro», diz o nosso homem em Amsterdão.

Ódio

Escrito no espaço branco da página 84 de «Efeito Borboleta» do Zé Mário Silva.

Está no meio dum parking, ao sol, um parking imenso. Ali especado, tentando divisar o pronto-socorro.
Haviam bastado vinte, vinte estúpidos minutos. Para comprar aquela pasta de dentes que só ali há. Logo a um sábado, a uma hora destas. Esquecera os máximos acesos. E a bateria foi à vida.
Aguarda já bem hora e meia. À sua frente, atrás, por todos os lados, há carros que aparcam, carros que arrancam, passam, piscam luzes, educadamente buzinam.
E ele sente ódio, um ódio de que se envergonha mas não consegue calar, por aqueles paspalhos que têm um carro que anda.
Fernando Venâncio



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges