Corpos incorpóreos

Romance
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 94
ISBN: 978-972-23-5713-5
Ano de publicação: 2015

A poucas semanas de completar 80 anos, Helder Macedo demonstra uma tremenda vitalidade ao publicar este inclassificável Romance, longo poema em cinco partes que mais parece abrir novos caminhos na sua obra do que consolidar os já existentes – como é uso acontecer com os autores consagrados. Talvez nem valha a pena discutir de onde vem o livro, ou como, ou porquê agora, uma vez que ele engendra as suas próprias circunstâncias. Contentemo-nos apenas – e já não é pouco – com a felicidade de o descobrir, nas suas acelerações, subidas ao céu, e abismos.
Logo nas epígrafes, Macedo assume o diálogo com Bernardim Ribeiro e a sombra do escritor quinhentista paira sobre cada verso, sobre cada estrofe. Numa frase de Menina e Moça, segundo a qual «o livro há-de ser o que vai escrito nele», encontramos a definição perfeita do que o autor do nosso tempo quis fazer: um texto que se alimenta de si mesmo, fantasma e eco de uma mesma voz onírica, em constante deriva. Há um ele e há uma ela, figuras nebulosas, erguendo-se de um emaranhado de sonhos, representando um vago teatro de signos que se repetem, à mercê das imagens poderosas que convocam, iluminações capazes de perfurar as trevas mais densas.
Aqui e ali surgem esboços de histórias, um fluir do tempo, uma fuga (talvez exílio), uma ilha, uma estrada em construção, faróis na noite, diálogos que se agarram a quase nada, mas depressa tudo se dissipa na força maior de uma cadência, uma espécie de ritmo cósmico que conduz o poema – e a nós, leitores, nos arrasta com ele. O impulso de metamorfose dos «corpos incorpóreos» que povoam estas páginas tende, sempre, para o horizonte de «um poema de silêncio / um romance que fosse / o que nele não fosse escrito / um olhar a olhar um olhar / a olhar / em direcções opostas / ao mesmo tempo / sem nada de permeio / um desejo a devorar o desejo / que depois iria devorá-lo».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges