Mergulho na psique

Talco de Vidro
Autor: Marcello Quintanilha
Editora: Polvo
N.º de páginas: 160
ISBN: 978-989-8513-43-4
Ano de publicação: 2015

Há uns meses, a Polvo deu-nos a conhecer, na sua excelente colecção de “romance gráfico brasileiro”, o penúltimo trabalho de Marcello Quintanilha: Tungsténio. Nesse livro, que tem Salvador da Bahia como cenário, acompanhamos histórias cruzadas de traficantes de droga e polícias, choques sociais e dilemas psicológicos, num fluxo de acontecimentos muitíssimo bem trabalhado, linear na sua estrutura mas com uma série de rasgos visuais que lhe conferem uma certa sofisticação narrativa. Na verdade, faltava a Tungsténio apenas um final mais forte, capaz de fazer jus à espantosa energia que atravessa todo o álbum.
Com Talco de Vidro, a sua mais recente novela gráfica (publicada no Brasil já em 2015), Quintanilha supera-se e oferece-nos uma obra que não se parece com nenhuma outra. Se um dos aspectos mais interessantes do livro anterior era o modo como o autor explorava a interioridade das personagens, os seus pensamentos e pulsões (sobretudo no caso de Keira, figura da amante que se questiona, à beira da ruptura sentimental), esse mergulho na psique é levado agora muito mais longe – na verdade, é levado até às últimas consequências.

No centro da narrativa está Rosângela, uma mulher de classe média-alta, com uma vida aparentemente perfeita: marido atencioso, filhos adoráveis, uma profissão (é dentista, com consultório próprio), casa no melhor bairro de Niterói, um bom carro. Esta harmonia é desfeita quando o sorriso radioso da prima pobre e de vida desgraçada, com quem sempre manteve uma distância feita de preconceito social (e respectiva ilusão de superioridade), lhe instiga a sensação de que Daniele, afinal, tem algo que lhe escapa, um qualquer inapreensível e inacessível talento para ser feliz. A inveja pura e dura lança-a num turbilhão autodestrutivo, em que a sua personalidade, de tanto querer eliminar fantasmas e inseguranças, acaba por se desagregar e cair a pique num caos existencial.


O esquivo narrador de Quintanilha, ele próprio cheio de dúvidas e hesitações no modo como nos conta o que se passa na cabeça de Rosângela (um território de «sensações», mais do que de pensamentos), consegue o prodígio de nos fazer sentir, na sua crueza extrema, as oscilações e abismos de um estado mental. O triunfo maior do livro, porém, está no modo como um texto tão fugidio, por vezes quase rarefeito, se articula exemplarmente com as imagens – ora realistas, ora abstractas; umas vezes captando detalhes em zoom, outras inserindo ecos e memórias, ou materializando estados de alucinação, indícios de loucura.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges