A alquimia infame

HHhH – Operação Antropóide
Autor: Laurent Binet
Título original: HHhH
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 298
ISBN: 978-972-0-07130-9
Ano de publicação: 2011

Obra de estreia de Laurent Binet (n. 1972), distinguida em 2010 com o prémio Goncourt para primeiro romance, HHhH – Operação Antropóide é um livro sobre a possibilidade (ou impossibilidade) da representação literária, sobre o poder da narrativa ficcional e os seus limites. Logo no primeiro dos 257 capítulos curtos em que a obra se divide, Binet evoca um homem a quem deseja prestar homenagem, o herói eslovaco Jozef Gabčík, co-autor de «um dos maiores actos de resistência da Segunda Guerra Mundial». Imagina-o no seu quarto, de persianas corridas, ouvindo o chiar de um eléctrico que passa na rua, em Praga. E começam aqui os problemas com a saga do atentado histórico que deseja tão ardentemente contar: «Estou a reduzir este homem à categoria de vulgar personagem, e os seus actos a literatura.» Trata-se, nas suas palavras, de uma «alquimia infame», um jogo perigoso que lhe causa sobressaltos éticos. De qualquer modo, ele avança: «Não quero arrastar esta visão pela vida fora sem, pelo menos, ter tentado restituí-la. Só espero que, por trás da espessa camada reflectora de idealização que vou aplicar a esta história fabulosa, o espelho sem estanho da realidade histórica se deixe ainda penetrar.»
A «visão» de que Binet fala é a que emerge da densa sequência de factos que levaram à morte por septicemia de Reynard Heydrich, responsável nazi pela Boémia e Morávia, na sequência do ataque ao seu Mercedes, a 27 de Maio de 1942, por dois pára-quedistas vindos de Londres (o já referido Gabčík e Kubiš, um checo). Este acontecimento concreto tornou-se, com o tempo, uma obsessão para o escritor, que acumulou gradualmente toneladas de informação sobre a época e as figuras implicadas. Contrariamente ao que acontece na maior parte dos romances que abordaram o tema (alguns deles analisados por Binet), a intenção não era apenas mostrar o árduo caminho dos resistentes até conseguirem pôr fim à «besta loira», esse ideólogo maior da Solução Final, também conhecido como «o cérebro de Himmler» (nas SS, brincava-se com o acrónimo do título, HHhH, que quer dizer «Himmlers Hirn heißt Heydrich»; ou seja, «o cérebro de Himmler chama-se Heydrich»). Na verdade, o livro mergulha nas origens de Reynard, acompanha a sua trajectória ascendente dentro da hierarquia nazi e as suas maquinações, mas não pretende explicar a sua natureza pérfida. Tal como não pretende explicar o heroísmo dos pára-quedistas, cuja entrada em cena vai sendo adiada durante quase cem páginas («Talvez essa longa espera na antecâmara do meu cérebro lhes restitua um pouco da sua realidade, e não apenas a vulgar verosimilhança»).
É justamente esta procura de uma verdade que não seja corrompida pela retórica literária que está no centro das preocupações de Binet. Para fugir ao «carácter ridículo e pueril da invenção romanesca», ele opta por criar um «sub-romance». Isto é, uma narrativa que incorpora, em alternância com a história principal, elementos exteriores: dúvidas (o Mercedes afinal era preto ou verde?), hesitações, erros, desvios, reflexões sobre a escrita em curso e memórias da própria vida do autor durante o processo. Os seus dilemas, diga-se, são essencialmente os mesmos que Flaubert sentiu ao recriar um tempo histórico distante, em Salambô. A diferença é que Flaubert só mencionou esses dilemas na correspondência privada, enquanto Binet os transforma numa das linhas de força principais do livro.
«Escravo» dos escrúpulos, o escritor chega a parecer emparedado: «Não posso contar esta história tal como ela devia ser contada. Toda essa miscelânea de personagens, de acontecimentos, de datas, e a arborescência infinita de ligações de causa a efeito, e essa gente, essas pessoas reais que existiram de facto, com a sua vida, os seus actos e os seus pensamentos dos quais apenas traço um quadro ínfimo… Esbarro incessantemente contra esse muro da História sobre o qual trepa e se estende, sem nunca parar, sempre mais alta e sempre mais espessa, a hera desesperante da causalidade.» Dá-se então uma espécie de paradoxo. Quanto mais Binet se convence de que a história é impossível de abarcar, porque não tem fim e nunca será possível colmatar os seus hiatos, mais se aproxima do que ela tem de profundamente belo, grandioso e insondável.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “A alquimia infame”

  1. nb on Abril 27th, 2011 20:57

    o comentário que estava à espera
    obrigada
    obrigada
    vou adquirir também.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges