A armadilha da falsificação

O Condottiere
Autor: Georges Perec
Título original: Le Condottière
Tradução: António Mega Ferreira
Editora: Sextante
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-676-166-0
Ano de publicação: 2013

É impossível falar desta obra de juventude de Georges Perec (1936-1982) sem explicar o contexto em que surgiu. Após algumas experiências literárias no final da adolescência, Perec trabalhou arduamente, durante três anos (1957-1960), no manuscrito de um romance que foi assumindo diversas formas e títulos até se fixar no texto que agora nos é revelado. Fechadas as portas na Seuil, Perec tentou a Gallimard e conseguiu um adiantamento de direitos: 75 mil francos. Estava à beira de cumprir o sonho de ser um escritor publicado (escritor tout court já ele se sentia), mas o idiossincrático comité de leitura da Gallimard torceu o nariz ao que qualificou de «imperícia» e «tagarelice», adiando por cinco anos a sua entrada no território da literatura francesa (uma entrada triunfal, diga-se, com Les Choses, que venceu o Prémio Renaudot em 1965).
Na ressaca das recusas, Perec prometeu ao amigo Jacques Lederer retomar o livro «daqui a dez anos, altura em que isto se tornará uma obra-prima», ou «esperar no túmulo que um fiel exegeta o encontre numa mala velha que te pertenceu e o publique». Proféticas palavras. Tresmalhado numa mudança de casa e dado como perdido, o livro só foi redescoberto na década de 90 e publicado em 2012, quando se assinalaram os 30 anos da sua morte. E se O Condottiere não ganhou estatuto de obra-prima, a verdade é que também não se trata de uma mera curiosidade literária. Neste policial heterodoxo – uma narrativa selvagem; ramificada; claustrofóbica; reiterativa; não-linear; obscura e luminosa ao mesmo tempo – já está muito do que Perec fará mais tarde, tanto no plano temático como estilístico. Claude Burgelin, no prefácio, assinala que «as pontas que saem de todos os lados são as mesmas pelas quais continuamos hoje a puxar: são elas que nos conduzem à sequência posterior da sua obra».
O livro abre com o protagonista, Gaspar Winkler, um falsificador profissional, a assassinar o homem que lhe encomendou o último trabalho: uma versão do retrato de um mercenário, pintado no século XV por Antonello da Messina. Winkler tenta compreender o encadeamento de factos e de histórias que o conduziram até ali, procura uma explicação para o falhanço do seu trabalho e para a necessidade de matar o patrão, mas quanto mais se aventura pelos túneis e subterrâneos do seu passado, mais cresce a certeza de que se enredou numa armadilha. Ao entrar no mundo da contrafacção e do engano, essa «ratoeira demasiado perfeita», iludido com «a criação autêntica de uma obra-prima do passado», ele mergulhou num mundo de sombras e fantasmas.
Mais do que uma cópia exacta do Condottiere, o que ele pretende fazer é um outro Condottiere, tão verdadeiro como o de Antonello, mesmo se aquém do seu «génio» e «precisão» (a capacidade de sugerir o carácter de um homem pela musculatura do maxilar). No «rosto-espelho», o falsificador descobre, uma vez caídas todas as máscaras, «o equívoco perturbante do seu próprio olhar». Mas a noção de um fracasso total, de uma absoluta incapacidade de exercer, pela pintura, o «domínio do mundo», conduzem-no a uma «explosão de ódio e loucura» (o homicídio, a tentativa de fuga) que é também uma forma de ganhar consciência. E de procurar um caminho para a liberdade. Tornar-se pintor, em suma. Como Perec, à sua maneira, se tornou escritor, ao procurar neste texto uma «liquidação definitiva dos espectros do passado».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges