A arte de inventar mapas

Tão Longo Amor Tão Curta a Vida
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-23-4994-9
Ano de publicação: 2013

Logo no ínicio de Tão Longo Amor Tão Curta a Vida, sexto romance de Helder Macedo, assistimos a um curioso pacto ficcional. Na casa de um narrador que em tudo se confunde com o autor do livro, aparece, muito aflito, um embaixador português. Em Londres para participar num think tank sobre a «exportação da democracia para os povos oprimidos», num mundo pós-Kadhafi, Victor Marques da Costa (VMC) conta uma «história meio complicada de amores antigos e de sequestros recentes». Os primeiros dizem respeito ao envolvimento com uma cantora de ópera, Lenia Nachtigal, alemã filha de uma agente da Stasi, ainda no tempo da RDA, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim. Já o sequestro teria acontecido dias antes, em circunstâncias pouco claras, sobre as quais o embaixador, que apresenta vestígios de sangue na camisa, não parece muito disposto a fazer luz.
Na verdade, dizendo-se admirador da obra romanesca do seu anfitrião, VMC oferece-se ostensivamente como personagem, agarrando-se à ideia de que a função dos escritores é «libertar as personagens», concedendo-lhes «o livre-arbítrio que não têm». A quem o acolhe tarde na noite, com oferta de guarida e roupa lavada, ele está disposto a entregar o papel de criador «fantasmático da sua vida», mas rapidamente surgem dúvidas sobre a verdadeira natureza da história. Ao recapitular episódios em tempos distintos, vai emergindo uma narrativa confusa e «inconclusiva», feita de elipses, áreas de sombra, espaços por preencher. «Como se tudo o que me contou, e que tanto podia ser verdade como mentira ou, mais provavelmente, uma mistura das duas coisas, (…) fosse só o prelúdio de uma história ainda por contar de que eu pudesse ser o autor. Ou a cópia de um original ainda por escrever.»
Em tempos, a principal distracção de VMC consistira em inventar geografias imaginárias, desenhando mapas «com países que não havia». E é essa também a arte do ficcionista: inventar a possibilidade do que talvez nunca aconteceu. Ao descobrir um suposto crime no lugar onde o embaixador garante ter sido sequestrado (um apartamento na rua em que Freud morou), o escritor sente que tem um princípio e um fim, a que falta a história «escondida no meio». Tenta então torná-la «mais verosímil porque totalmente fictícia», criando uma rede densa de «coexistências aleatórias» e «correspondências significativas» entre personagens (por exemplo, desdobrando Lenia em duas mulheres quase simétricas: a alemã, que entretanto perdeu a voz; e uma brasileira, outra face da mesma moeda).
Tortuosa, labiríntica, com vários pontos de fuga (aqui «não há círculos fechados mas espirais»), a história imaginada pelo narrador vai abrindo espaços para «uma mentira alternativa que pode ser verdade». Ao materializar-se na escrita, porém, desilude VMC, para quem o texto é um «exemplo perfeito de como não contar uma história». O narrador assume então que a sua «abordagem» representa «um virar às avessas das expectativas narrativas habituais», uma espécie de sabotagem deliberada. Ele não quer ter o papel do tradicional autor omnisciente, «o que funciona como se soubesse tudo sobre as suas personagens», porque essa pose de demiurgo não lhe assenta. Vinca por isso o seu estatuto ambíguo, acumulando no relato «improbabilidades, inconsistências, falsas conexões», paradoxos e oxímoros.
Tão Longo Amor Tão Curta a Vida é uma ficção inteligentíssima sobre as possibilidades e os limites da ficção. Helder Macedo diverte-se, divertindo-nos, ao criar uma estrutura complexa mas cristalina, onde o thriller psicológico coexiste com citações eruditas (das óperas de Verdi a Shakespeare, da mitologia grega à Origem do Mundo, de Courbet). Não será «um livro como deve ser, daqueles que têm princípio meio e fim, à inglesa», como o que lê a mulher do narrador. Felizmente, dizemos nós.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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