A arte de passar ao lado

Prosas Apátridas
Autor: Julio Ramón Ribeyro
Título original: Prosas Apátridas
Tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 134
ISBN: 978-989-97228-1-1
Ano de publicação: 2011

Peruano de nascimento, Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) viveu quase toda a sua vida adulta na Europa. Durante uma década, viajou «com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil», até assentar arraiais em Paris no início dos anos 60, onde foi jornalista da France Press e adido cultural junto da UNESCO. Reunindo os textos da edição original (1975) aos que foram acrescentados na edição espanhola de 1986 (Tusquets), estas Prosas Apátridas podem ser uma excelente porta de entrada para a sua obra, até agora inédita em Portugal, mas não correspondem a uma escrita do exílio ou do desenraizamento, como o título eventualmente sugere. Se estes textos são apátridas é porque «não se ajustam cabalmente a nenhum género» nem pertencem a «um território literário próprio».
No fundo, constituem uma sucessão aparentemente fortuita de duas centenas de fragmentos, nos quais encontramos de tudo: aforismos, vinhetas, farpas, esboços líricos, epifanias, anedotas, poemas em prosa, sugestões irónicas, brevíssimos tratados de Sociologia ou História, ideias soltas – uma espécie de blogue avant la lettre, em que Ribeyro dá mostras de uma sabedoria oblíqua, esquiva, sem certezas nenhumas. Se um texto fala de livros e do culto que lhes prestamos, o seguinte pode cantar o amor, o sexo, o corpo das mulheres. Ou então reflectir sobre a memória, a amizade, a infância, a solidão, a vida secreta dos objectos, o carácter maldoso das casas, o apelo da morte que nos espreita ao «dobrar de cada esquina», a instabilidade do passado (sempre sujeito a ser destruído pelo presente).
Ribeyro assume que anda à deriva num «mundo ambíguo», em que a realidade é «um fenómeno tão difuso que se afigura difícil distingui-la do sonho, da fantasia ou da alucinação». O seu método: a divagação sistemática. Ele considera-se um «hedonista frustrado», um homem que só se descobre escritor no fundo das garrafas de vinho, um esteta que fuma à janela, a contemplar do alto a silhueta de Paris, ouvindo música barroca enquanto espera a «irrupção do maravilhoso» no tecido trivial dos dias. Como o flâneur de Baudelaire, ele anda pelas ruas, atentíssimo aos fulgores e horrores da comédia humana, entrevistos a cada instante nos apartamentos das porteiras ou nas carruagens do metro. Objectivo: «ser tão-só o vidro através do qual nos penetra, intacta, a vida».
Fora isto, esconjura fantasmas, oportunidades perdidas, renúncias, os gestos que não foram feitos em devido tempo. O desconforto, esse, nunca se atenua, «talvez porque escrever seja ignorar o canto de sereia da vida, talvez porque nada do que fiz me satisfaz, talvez porque muitas vezes tenho a impressão de que em algum momento me enganei no caminho e isso me condenou para todo o sempre a passar à côté de la question». Este desacerto, esta estranha arte de passar ao lado das coisas, esta dispersão, esta «incapacidade de concentrar duradouramente o meu interesse, a minha inteligência e as minhas energias em algo concreto», mergulham Ribeyro na melancolia, mas também num estado de lucidez próximo da revelação: «O meu olhar adquire, em momentos privilegiados, uma agudeza intolerável; e a minha inteligência, uma sagacidade que me assusta.»
Às vezes áspero e agreste, outras vezes de uma delicadeza que arrepia e comove, o estilo de Ribeyro faz lembrar um instrumento de precisão. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Só as estritamente necessárias. Um exemplo: «O grande mural fotográfico que adorna a sala do Café Les Finances. Representava, nos seus bons tempos, um bosque em pleno verdor. Com os anos a cor foi amarelecendo. A Primavera das fotografias também tem o seu Outono.»
Eis o início do fragmento 149: «Imaginar um livro que seja desde a primeira à última página um manual de sabedoria, uma fonte de regozijo, uma caixa de surpresas, um modelo de elegância, um tesouro de experiências, um guia de conduta, um regalo para os estetas, um enigma para os críticos, um consolo para os desafortunados e uma arma para os impacientes.» Não conheço melhor sinopse para Prosas Apátridas, um livro extraordinário que, depois de lido, nunca mais nos abandona.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “A arte de passar ao lado”

  1. André Domingues on Maio 4th, 2011 14:16

    Um dos meus géneros favoritos, o género apátrida, que Ribeyro cultiva de forma exemplar. Espero que se traduzam mais livros deste autor, se possível publicados por esta nova editora aqui do Porto – AHAB – que me parece muito competente, quer na tradução, quer na revisão.

  2. Inês Henriques on Maio 17th, 2011 0:05

    É difícil vender livros, sem os ler todos lol. Tendo em conta que vão saindo 20 novidades ou mais por semana, estes blogs são sem dúvida uma ajuda preciosa. Gostei muito deste artigo*

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges