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A cada um sua moléstia

O Porco de Erimanto e outras fábulas
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-795-299-1
Ano de publicação: 2010

Há livros, como o mais recente volume de contos de A.M. Pires Cabral, que merecem ter duas vidas. Nada do outro mundo, se considerarmos que a primeira não chegou propriamente a existir. Publicado em 1985 por uma «editora efémera» (Nova Nórdica), O homem que vendeu a cabeça nem sequer entrou nos circuitos comerciais: «a tiragem de 2500 exemplares deve ter apodrecido nalgum armazém, sido guilhotinada ou vendida a peso», explica o autor. Passado um quarto de século, eis que o livro renasce, substancialmente revisto e aumentado (mais três contos), com novo título e chancela de uma editora nada efémera (Cotovia).
Feliz ressurreição, diga-se, porque o autor de O Cónego (e de uma extensa obra poética) está entre os melhores prosadores portugueses em actividade. Como Agustina Bessa-Luís ou Mário de Carvalho, Pires Cabral explora até ao limite a riqueza da língua, a sua plasticidade sintáctica, o seu vocabulário. E faz de cada conto, para lá da narração em si mesma, um primor de linguagem. As histórias, essas, são ora divertidas, ora cruéis, ora divertidas e cruéis. Pires Cabral gosta de multiplicar narradores e pontos de vista, de construir os textos como caixas chinesas e de manobrar ostensivamente os cordéis das suas personagens, sujeitas ao mau génio de um deus ex machina que só as quer ver em estado de angústia e sofrimento.
Por causa de um buraco na parede, o hóspede de uma pensão barata alucina com o que se passa no quarto ao lado. Há quem ofereça cedo demais a cabeça à ciência, quem se transforme no seu objecto de estudo (o javali mítico dos trabalhos de Hércules), quem lute com a própria sombra ou com um cancro tão íntimo que até tem nome de gente (Desidério) e por isso se torna difícil de eliminar. A atmosfera geral é de insânia, mas uma insânia mais vezes cómica do que trágica. Se virmos bem, todos os protagonistas enlouquecem ou são vítimas da loucura alheia (que às vezes é só uma forma de maldade). E quando não ficam doidos, adoecem. «A cada um sua moléstia», preconiza uma das personagens, defensora do «carácter saudável da doença», esse tributo «a pagar à mecânica da carne». Noutra história, sugere-se que «um coração doente é o melhor tesouro que um homem pode ambicionar», porque nos oferece o consolo de um fim rápido. A morte está sempre a rondar este livro, sem descanso, nos seus mil disfarces. Por isso, mesmo quando o tom de Pires Cabral é assumidamente jocoso, quase zombeteiro, apetece-nos tudo menos rir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 93 da revista Ler]



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