A cerimónia do chá

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Mil Grous
Autor: Yasunari Kawabata
Título original: Sembazuru
Tradução (do inglês): Mário Dias Correia
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 149
ISBN: 978-972-20-3609-2
Ano de publicação: 2009

Primeiro nipónico a ganhar o Nobel de Literatura, em 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972) é o epítome do escritor japonês do século XX, capaz de fazer a ponte entre tradições literárias seculares e uma modernidade por vezes traumática. A sua prosa – concisa, elegante, contida, poética, subtil, despojada – tende a gerar nos leitores ocidentais uma avalanche de lugares-comuns e comparações redutoras ou disparatadas. Não falta quem associe o seu estilo delicadíssimo aos requintes estéticos do origami, do netsuke (pequenas esculturas em madeira ou marfim), do ikebana (arranjos florais) ou do ukiyo-e (estampas do período Edo). Os livros de Kawabata, porém, são apenas e só literatura. Da melhor que se fez nos últimos cem anos, no Japão ou noutro lugar qualquer. E isso devia bastar.
Publicado como folhetim na imprensa, entre 1949 e 1951, Mil Grous começa com uma cerimónia do chá, minuciosamente descrita. Kikuji Mitani, um rapaz solteiro, bom partido, que perdeu recentemente a mãe e o pai, é convidado para a cerimónia, um acontecimento social com rituais muitíssimo codificados, por Chikako Kurimoto, antiga amante do seu progenitor. Ao melhor estilo das alcoviteiras, esta pretende empurrá-lo para Yukiko, boa aluna na refinada arte de preparar o chá e uma potencial noiva prendada. Embora se sinta atraído pela graciosa rapariga, Kikuji acaba por fugir ao esquema montado por Kurimoto, envolvendo-se antes com uma sua antiga rival, a senhora Ota, também ela amante do Mitani mais velho.
Eis então uma história sobre as maldições do amor, que aparece, desaparece e reaparece como um fantasma cruel, uma assombração que paira sobre as personagens e as sufoca, empurrando-as para os tormentos da culpa, do desgosto e de um intangível «grau de escuridão». Por baixo das visitas de cortesia e dos diálogos elípticos, há emoções reprimidas, em carne viva. Kawabata só nos deixa espreitar esses abismos pelos interstícios de uma escrita sóbria, aparentemente à superfície das coisas, mas que nessa superfície descobre minúsculas fissuras, os sinais da irremediável ruína em curso. Exemplo: a «leve sugestão de vermelho» na borda de uma chávena antiga, mancha talvez «feita por lábios», há séculos ou há décadas, marca de presenças humanas que se repercutem através dos tempos e que nem a morte consegue apagar.
Ao atribuir o Nobel a Kawabata, a Academia Sueca destacou a sua mestria narrativa – «que com grande sensibilidade expressa a essência da mente japonesa» –, exemplificada em três dos seus romances. Um deles era Mil Grous. Percebe-se porquê.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no número 84 da revista Ler]



Comentários

One Response to “A cerimónia do chá”

  1. MiC on Novembro 24th, 2009 0:52

    Fica a que se espera boa sugestão. N sei se resistirei , agradeço-te por aqui. Um abraço de um acompanhante deste espaço que têm a curiosidade de ler também o teu livro…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges