A dor da imobilidade a ser desfeita

Liberdade
Autor: Jonathan Franzen
Título original: Freedom
Tradução: Maria João Freire de Andrade
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 684
ISBN: 978-972-20-4525-4
Ano de publicação: 2011

A principal singularidade dos Berglund — a família dentro e em torno da qual se desenvolvem as principais linhas narrativas deste romance — é não terem singularidade nenhuma. Eles vivem num bairro de classe média aburguesada, algures no Minnesota, onde prestam culto à boa vizinhança. Antiga basquetebolista, Patty assume-se como «abelha afável», a «bem-humorada carregadora do pólen sociocultural», ostensivamente decidida a representar o papel da mãe perfeita e dona de casa exemplar. Quanto a Walter, o marido, funcionário da 3M que se transferiu para a Conservação da Natureza, rapaz do campo com gostos sofisticados (Stravinsky, teatro experimental, bandas musicais alternativas) mas igualmente capaz de soldar uma junta de cobre, vai exercendo a simpatia como um mantra. Para compor o retrato, dois filhos: Jessica, a rapariga responsável; e Joey, o rebelde em potência (sendo que a rebeldia máxima, numa casa que vota nos democratas, passa por adoptar os valores republicanos).
Atrás desta fachada de respeitabilidade pública, as coisas são mais complexas. Há tensões, dramas, choques geracionais, erros que se acumulam e repetem. No bairro murmura-se que «sempre houve algo de estranho com os Berglunds», como se não houvesse sempre algo de estranho com toda a gente, como se a suposta normalidade não fosse uma convenção social. O que Franzen nos revela é o que os vizinhos intrometidos, capazes de julgar apenas pelo que vêem de fora, desconhecem: a mecânica interna da família, as muitas camadas de experiências humanas sobrepostas que moldaram a sua natureza e explicam o colapso iminente. À medida que os anos passam, o casamento treme nas fundações, ameaçado pelo fantasma de um triângulo amoroso mal resolvido, em que o terceiro vértice é Richard Katz, o melhor amigo de Walter desde os tempos da faculdade, músico egocêntrico e mulherengo que regressa à dureza do trabalho manual, construindo terraços panorâmicos para os ricaços de Nova Iorque, depois de ter alcançado inesperadamente a fama.
Num dos relatos autobiográficos de Patty, erguido em torno do «grande vazio da sua vida» e da lenta queda nos abismos depressivos da autocomiseração, ela descreve uma visita fugaz à universidade da filha. Ao olhar para um dos edifícios, depara com a seguinte inscrição numa pedra: «Usai bem a vossa liberdade». É este o problema central que aflige, consciente ou inconscientemente, a maioria das personagens do livro. Não tanto como ganhar a liberdade, mas o que fazer dela. Uma questão que atravessa os vários planos narrativos que Franzen consegue, sem atritos, encaixar uns nos outros, tornando fluido o contínuo vai-vem entre a esfera individual e a visão mais abrangente de um país, os EUA, confrontado com encruzilhadas históricas, económicas, políticas, ecológicas, etc.
Franzen é especialmente eficaz no desenho das personagens e no modo como nos mergulha nos seus conflitos interiores, na sua psicologia. O que tantas vezes falta noutros romances contemporâneos, há aqui de sobra — isto é, a espessura emocional que torna verosímeis e palpáveis as figuras saídas da imaginação do escritor. Quanto ao estilo, digamos que mantém as qualidades evidenciadas em Correcções (o romance anterior, de 2001, que fazia para a última década do século XX o que este faz para a primeira do século XXI), oferecendo-nos parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas. Exemplo: «Há uma tristeza perigosa nos primeiros sons do trabalho matinal de alguém; como se a imobilidade sentisse dor por estar a ser desfeita.» Não sendo o «romance do século», como decretou um crítico do The Guardian, este é ainda assim um livro poderosíssimo sobre isto de estarmos vivos em tempos conturbados, com todas as contradições imagináveis, mas também com a resiliência que nos permite sobreviver — apesar de tudo mais facilmente do que a mariquita-azul (a pequena ave ameaçada que Walter se propõe salvar).
Depois de ler Guerra e Paz, onde encontra espelhados alguns dos seus dilemas, Patty confessa-se «alterada» pelo romance de Tolstói. Salvaguardadas as devidas distâncias, duvido que haja leitores que não se sintam igualmente «alterados» depois de lerem Liberdade. É esse o poder maior da literatura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

3 Responses to “A dor da imobilidade a ser desfeita”

  1. paulo m. on Maio 13th, 2011 15:13

    Gostei da crítica, mas tenho uma observação a fazer: como é que a nota 3 atribuída no Expresso numa escala de 1 a 5, se transforma em 8,5 numa escala de 1 a 10?

  2. José Mário Silva on Maio 16th, 2011 16:16

    Como já escrevi aqui no blogue, houve um erro na edição em papel (corrigido na versão para iPad) que transformou as quatro estrelas que eu dei ao livro em apenas três. Como vê, assim tudo bate certo.
    :)

  3. Liberdade « Fragmagens on Maio 20th, 2011 21:35

    […] altura, estamos a ler a história de gente que conhecemos bem. Acrescentaria ainda o que já foi escrito por José Mário Silva: há parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas, o que diz muito da qualidade […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges