A enleia invisível

Os Anjos Nus
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 268
ISBN: 978-972-795-331-8
Ano de publicação: 2012

Na «memória justificativa» de Os Anjos Nus, A. M. Pires Cabral explica que só dois dos oito contos são inéditos, tendo sido os outros recuperados de minúsculas edições (cada uma com circulação mais restrita do que a anterior) e do suplemento de Natal do Jornal do Fundão. Ao ler os textos, em que reconhecemos a perfeição de estilo característica dos clássicos, agiganta-se o espanto: como puderam andar estas prosas tão afastadas de olhos que as mereçam, apodrecendo dentro de caixotes num armazém? É um mistério. Mas, lá diz o ditado, antes tarde do que nunca.
Os contos, «vagamente inspirados em acontecimentos verídicos» (mas prontos a questionar a sua própria veracidade), têm a uni-los uma mesma geografia: as paisagens de Trás-os-Montes, onde desfilam as vidas e as tragédias de pessoas apertadas «contra os muros da pobreza», presas à terra em que nasceram por uma «enleia invisível». Num cenário de romarias, falsos milagres e cultos a santinhas (sempre em ânsias de converter a Rússia), há abundância de padres e dos homens que nas aldeias os antagonizavam: médicos, farmacêuticos ou professores com costela jacobina e aversão a «sotainas retrógradas».
Pires Cabral é particularmente eficaz no modo como desvenda os rígidos códigos sociais em acção, seja no luto das viúvas «de um marido vivo» (os homens que emigravam), seja no castigo das infidelidades amorosas, afrontas «lavadas com sangue» ou resolvidas pela ingestão de veneno do escaravelho. Subjacente a tudo, a ideia de que mesmo agindo mal se podem fazer boas coisas e de que não vale a pena insistir no escudo do racionalismo, porque há sempre «uma porta das traseiras por onde entram coisas irracionais como a fé, a crendice, o palpite».
Vilar Frio e O salvo-conduto são histórias exemplares, escritas com garbo e verve camiliana, mas o ponto mais alto do livro é o último texto, O Diário de C*, espantosa exegese do tosco diário de um namoro vulgar, supostamente encontrado numa Agenda Grandella de 1914. Depois de descrever em pormenor o próprio objecto («híbrido de almanaque e agenda»), o narrador assume «uma agridoce nostalgia por tudo quanto foi» e mergulha na «sintaxe tortuosa» de C*, analisando a fundo as suas breves entradas, lendo nas entrelinhas, criando hipóteses, supondo aquilo que não se pode saber. Trata-se aqui de exumar a memória de duas pessoas naufragadas no mar do olvido, não «à maneira do sociólogo que friamente observa e deduz, mas como quem ama e desculpa e quer compreender». Belo desígnio, cumprido com um zelo todo feito de «compaixão e teimosia».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges