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A filha do colono

Caderno de Memórias Coloniais
Autora: Isabela Figueiredo
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 164
ISBN: 978-972-8827-66-3
Ano de publicação: 2009

Em Portugal, não estamos habituados a livros assim. Viscerais, magnéticos, narrados na primeira pessoa com um desassombro que estilhaça os limites do pudor. Livros que nos atiram à cara a vida em bruto, exactamente como ela é (ou foi), fixando com nitidez todos os brilhos, negrumes, abismos e epifanias que cabem numa existência circunscrita a um determinado tempo e a um determinado espaço.
No caso de Isabela Figueiredo (n. 1963), o tempo é o da infância e o espaço a Matola, nos subúrbios de Lourenço Marques, onde o pai electricista e a mãe dona-de-casa habitavam no início dos anos 70. Em 43 textos curtos, previamente publicados no blogue O Mundo Perfeito, Isabela recorda essa infância como se folheasse um álbum de fotografias imune aos tons sépia da nostalgia. As imagens que convoca, através de uma linguagem cortante, são fortíssimas, dramáticas, cheias de contraste. Os bois são chamados pelos nomes. As conversas transcritas ipsis verbis. As violências explicadas tal e qual. Mesmo falível, a memória refaz a realidade de uma época (ou a forma como essa realidade foi vista por uma criança), nunca escondendo o que ficou em carne viva.
Ao lembrar a sua meninice de «filha do colono», protegida mas atenta ao que se passava para lá do portão, Isabela abre uma caixa de Pandora e tem depois a coragem de não a fechar. Coragem, sim, porque da caixa emerge um retrato da sociedade moçambicana que desfaz, um a um, os mitos sobre o nosso colonialismo supostamente «suavezinho» e brando, pelo menos se comparado com o britânico, essa ideia feita com que muitos retornados aligeiram a consciência.
O pai, a quem ela fazia companhia na Bedford branca, era um racista que gostava de dar «porrada pedagógica» nos trabalhadores negros e os humilhava durante os pagamentos semanais, transformando «os finais dourados das tarde de sábado num poço escuro de medo e raiva». Esse homem enorme, expoente da mentalidade colonial no que tem de pior, nunca deixando de ser um corpo disponível para o afecto mais puro, ocupa o livro inteiro, invade-o por todos os lados. Porque é contra ele, mas também para se reconciliar com ele, que a filha escreve. A filha que o traiu, ao regressar à metrópole, não entregando a mensagem de que era «portadora», porque a verdade dele não coincidia com a sua, a verdade que tão exemplarmente descreve neste Caderno. A filha que o traiu, talvez, por amor. Ou, como ela escreve, «para que pudéssemos levantar a cabeça».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “A filha do colono”

  1. José Catarino on Fevereiro 9th, 2010 19:39

    Ai, Édipo, Édipo…

    • IV on Fevereiro 11th, 2010 0:01

      Acha então o Sr. José Mário Silva q os “retornados” é q têm de ‘aligeirar a sua consciência’ em relação ao colonialismo? Onde é q o sr. estava (ainda de cueiros…) no 25 de Abril e durante todo o “exemplar” processo de descolonização levado a cabo pelos ‘gloriosos filhos do Movimento das Forças Armadas’?! Consciência pesada é coisa q os ‘ditos retornados’ não possuem! Deixe-os em paz porque eles já provaram a esta merda de país q são superiores a tudo isto! Limite-se a criticar aquilo de q entende, q até o faz bem.

      • António Nunes on Fevereiro 13th, 2010 9:38

        As pessoas que regressaram vindas das colónias sofreram muito,e as questões de “consciência” ficam para cada um resolver no foro pessoal. Mas sobre o livro…. estou curioso por o ler, só tenho de o encontrar.,,

        • DA on Fevereiro 16th, 2010 18:42

          É admirável que alguém tenha tido finalmente a coragem de escrever estas “memórias” e que tenha conseguido transmitir, ao mesmo tempo, tanta assertividade e tanta emoção. Gostava de agradecer à Isabela, e também ao JMS porque apesar dos “cueiros no 25 de Abril” soube entender perfeitamente o espírito deste “caderno” :)

          «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges