À flor da boca

Pornografia Comum
Autor: Joaquim Cardoso Dias
Editora: Gulliver
N.º de páginas: 53
ISBN: 978-989-20-6243-3
Ano de publicação: 2015

Revelado durante a década de 90 nas páginas do saudoso DN Jovem, onde se tornou figura de culto entre os colaboradores do suplemento, Joaquim Cardoso Dias (n. 1973) é um poeta muito discreto e, talvez por isso, quase desconhecido, embora nunca lhe tenha faltado o reconhecimento de outros poetas. Até agora, a sua obra resumia-se a um único livro de poesia, O Preço das Casas (Gótica, 2002), e à organização de um volume de correspondência (Dez Cartas para Al Berto, Quasi, 2007). Esta contenção deve-se a um auto-escrutínio implacável e talvez excessivo («escrevo muito pouco e posso dizer tudo / e não falar nada»), nos antípodas de uma certa ligeireza que leva alguns autores a publicarem praticamente tudo o que escrevem.
Para JCD, a poesia só faz sentido se for um lugar de entrega absoluta, de exposição total, palco de todos os fulgores e fragilidades: «eu escrevo livros para pulsar / no mundo». E é isso que eles fazem. Pulsam como corpos perecíveis. Captam microscópicas vibrações, cambiantes de luz, matérias tão impalpáveis que estão sempre em vias de se desfazer. Em O Preço das Casas, circulávamos entre os abismos do amor e a desolação do que vem depois. Numa das páginas finais, um verso refere a «palavra morte sem princípio nem fim». Era ainda uma morte quase abstracta, mas que se materializa agora, como sombra omnipresente, em Pornografia Comum, livro que nasce de um estado de luto, após a morte recente, e quase simultânea, dos pais do poeta.
De uma obra para a outra, repetem-se títulos, alguns versos, um poema inteiro, a mesma voz magoada, delicadíssima. Esta é uma arte de elipses e incisões, de desvios e recuos, de coragem e recato, de coisas ditas «à flor da boca». E se «escrever é sempre aquele desejo demasiado / inocente», também conduz a uma espécie de conhecimento íntimo da beleza: «sei que uma criança é um espelho à janela / cercada pelas estrelas em plenos pulmões».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges