A ilha dos tradutores

orsenna

Dois Verões
Autor: Erik Orsenna
Título original: Deux étés
Tradutor: Luís Ruivo Domingos
Editora: Teorema
N.º de páginas: 162
ISBN: 978-972-695-763-8
Ano de publicação: 2009

Em meados dos anos 60, instala-se em Bréhat, na Bretanha, um tradutor com «ares de fauno». Chama-se Gilles Chahine e encontra naquela ilha «que mete medo às nuvens» – espécie de «Sardenha no meio da Mancha» – o refúgio ideal para ultrapassar a morte do seu amigo Jean Cocteau, para quem tocava, ao piano, peças de Couperin. Numa cabana austera em frente ao mar, com uma velha máquina de escrever Remington e rodeado pelos seus 47 gatos, ele entrega-se ao seu ofício, que gosta de comparar à actividade dos corsários. Não é difícil: basta imaginar que os livros são navios com palavras em vez de marinheiros. «Quando um barco estrangeiro lhe agrada, aborda-o. Atira a tripulação ao mar e põe lá os amigos. Depois iça a bandeira nacional no topo do mastro grande.» Revelando sensatez, Gilles só se ocupa de autores defuntos, como Henry James ou Jane Austen, «gente instalada na eternidade» que tem a suprema vantagem de nunca se queixar da «cirurgia» a que os seus textos são sujeitos no processo de tradução (durante o qual, é sabido, «cortam-se frases, amputam-se sentidos, enxertam-se trocadilhos, estropia-se, cose-se»).
Um belo dia, em Outubro de 1969, a editora Arthème Fayard pede-lhe que traduza Ada ou Ardor, o maior e mais ambicioso dos romances de Vladimir Nabokov (publicado em Nova Iorque uns meses antes). Ele responde logo que sim, ainda perplexo com o generoso e inesperado adiantamento de honorários. Ao ler o livro, porém, apercebe-se do sarilho em que se meteu: «Como fazer para pôr em francês o passeio alado da narração (…), como transmitir aquela leveza, aquela liberdade, aquela fantasia de borboleta a debicar pelo mundo?» Seguem-se bloqueios, procrastinação e impaciência editorial. Como Nabokov é todos os anos candidato ao Nobel, a Fayard não pode dar-se ao luxo da espera. E por isso pressiona, avisa, ameaça. Quando o fio que sustém a espada de Dâmocles está quase a partir, Gilles confessa o seu desespero a uma vizinha (familiar de Saint-Exupéry) e é então que a ilha inteira se mobiliza para o ajudar, tanto por solidariedade quanto por «ódio a Paris». Criam-se pequenos comités de tradução, dividem-se capítulos, cada um ajuda como pode e sabe (há mesmo um fotógrafo argentino que se oferece para sintonizar, quando a ionosfera permite, as vozes de radioamadores de todo o mundo e respectivas achegas).
Esta é uma bela história verídica, contada vinte anos mais tarde, com extraordinária delicadeza e num tom elegíaco sempre justo, por Erik Orsenna – a quem couberam, naqueles dois verões de empenhamento colectivo em prol da literatura, as passagens «mais atrevidas» da obra-prima nabokoviana. A história real, essa, teve um desfecho menos feliz do que a sua versão romanesca. Insatisfeita com o resultado do trabalho de Chahine e seus cúmplices, a Fayard entregou o material a Jean-Bernard Blandenier, a quem coube concluir a atribulada viagem de Ada até à língua francesa.

Avaliação: 8/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “A ilha dos tradutores”

  1. Demonstração (em dois passos) da indiscutível e insofismável superioridade do livro (físico, em papel) sobre os leitores de e-books | Bibliotecário de Babel on Setembro 11th, 2009 16:21

    […] com os meus filhos para o passeio de sábado à tarde. Na mão levava um livro-livro, em papel (Dois Verões, de Erik Orsenna, Teorema). Antes ainda de começar a descer os primeiros degraus (moramos no […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges