A lata do artista

30gramas

30 gramas
Autor: Leonel Moura
Editora: LxXL
N.º de páginas: 78
ISBN: 978-972-8615-05-5
Ano de publicação: 2009

Leonel Moura (n. 1948) tem-se destacado nos últimos anos por uma série de trabalhos, tanto teóricos como práticos, na área da robótica, da criatividade artificial e da bioarte. O RAP, talvez o mais conhecido dos seus robôs pintores, faz hoje parte da colecção permanente do Museu de História Natural de Nova Iorque. Já o ISU, um «robô poeta» que recorre a processos aleatórios de escrita, acaba de ver publicado o seu primeiro volume de Poesia Robótica.
Observador atento do que se está a passar na fronteira entre a arte e a tecnologia, mas também nas restantes frentes da criação contemporânea, Moura explora em 30 gramas uma velha questão colocada pelas vanguardas: a de saber o que é que define um objecto artístico. Diante de uma tela de Rembrandt, ou de uma estátua de Policleto, ninguém hesitará na resposta, mas as coisas tornaram-se menos óbvias quando Duchamp virou um urinol ao contrário e lhe chamou Fonte, ou quando Piero Manzoni encheu um lote de 90 pequenas latas de conserva com 30 gramas das suas próprias fezes, intitulando estas obras de forma literal (Merda d’Artista) e pedindo por elas o equivalente ao respectivo peso em ouro. Compreensivelmente, na altura (1961) não vendeu uma única, mas agora as latas estão em colecções particulares ou museus, e quando são leiloadas atingem preços dezenas de vezes superiores ao que se paga, hoje, por 30 gramas do vil metal.
A provocação de Manzoni é justamente o ponto de partida desta curiosa novela, em que um narrador muito parecido com Leonel Moura (também cria robôs pintores e veste de preto) tenta ajudar Gianfranco Vogué – um «vagabundo rico», falsificador de Keith Haring e Basquiat, mas com pretensões artísticas – a desfazer uma dúvida que o obceca: será que as latas contêm mesmo excrementos ou outra coisa qualquer (ou, pior ainda, nada de nada)? Ao narrador, a inquietação parece supérflua. Para ele, a obra de Manzoni só interessa enquanto gesto radical, enquanto afirmação de que «tudo pode ser arte, até a merda». A «profissão» dos artistas não é confirmar a verdade, tarefa ao alcance de «qualquer idiota», mas saber contar, ou inventar, «uma boa mentira», como escreveu Samuel Butler. Dito de outro modo, «a lata de Manzoni não vale pelo que contém, vale pelo que o autor diz conter». Tal como as salas vazias de Yves Klein ou o recipiente de vidro com «Air de Paris» proposto por Duchamp.
Gianfranco, porém, obstina-se, levando o amigo português a ajudá-lo nas várias tentativas, todas falhadas, para obter e abrir uma das latas. Pelo caminho, há muita conversa, bons restaurantes e uma sucessão vertiginosa de cenários: Lisboa, Córdoba, Nova Iorque, Lausanne, Serra da Estrela, Paris, Roma, Banguecoque. O fio da narrativa é simples, o desenlace irónico, mas a ficção nunca deixa de ser um pretexto para o «passeio aleatório» de Leonel Moura pelas ideias e feitos dos grandes subversores da arte do século XX que tanto admira, do omnipresente Duchamp (de quem se recupera o diário sucinto do ano em que transformou o urinol em arte: 1917) a Lucio Fontana e ao Andy Warhol das Piss Paintings.
Erudita sem ser críptica, agradável de ler e divertida, falta a esta novela um maior investimento em termos de linguagem. O estilo revela-se pouco cuidado, a pontuação é um desastre, há muitas arestas por limar e o aparente desprendimento esconde, as mais das vezes, um certo facilitismo. Em suma: a instalação literária de Moura é interessante, bem urdida, mas o artista podia (e devia) ter caprichado mais nos acabamentos.

Avaliação: 6,5/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

3 Responses to “A lata do artista”

  1. Maria Almira Soares on Agosto 7th, 2009 13:12

    Metáfora

    Uma lata existe para conter algo
    Mas quando o poeta diz: “Lata”
    Pode estar querendo dizer o incontível

    Uma meta existe para ser um alvo
    Mas quando o poeta diz: “Meta”
    Pode estar querendo dizer o inatingível

    Por isso, não se meta a exigir do poeta
    Que determine o conteúdo em sua lata
    Na lata do poeta tudonada cabe
    Pois ao poeta cabe fazer
    Com que na lata venha caber
    O incabível

    Deixe a meta do poeta, não discuta
    Deixe a sua meta fora da disputa
    Meta dentro e fora, lata absoluta
    Deixe-a simplesmente metáfora.

    Gilberto Gil

  2. fallorca on Agosto 7th, 2009 15:50

    Os «robots celibatários» não deviam estar bem programados 😉

  3. José Mário Silva on Agosto 7th, 2009 15:51

    Obrigado pelo poema, muito a propósito.
    Melhor que isto, só se Gil, em vez de “meta”, tivesse escrito “merda”.
    :)

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges