A longa espera

Perder Teorias
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Perder Teorías
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-97474-0-1
Ano de publicação: 2011

Em Dublinesca, o seu último romance, Enrique Vila-Matas acompanha os impasses e cogitações de um editor da velha guarda (ou seja, daqueles que «ainda lêem») nestes tempos de euforia com os suportes digitais, que a ele, Samuel Riba, só prenunciam o declínio definitivo da literatura e umas sombrias «exéquias da galáxia Gutenberg». Ironicamente, esse espantoso livro foi publicado em Portugal no início deste ano pela Teorema, poucas semanas depois de Carlos Veiga Ferreira se ter afastado de vez, e não sem amargura, daquele que foi o projecto editorial da sua vida — um pouco à semelhança do que acontece a Riba, com quem partilha não só o percurso profissional como uma certa mundividência. Mais irónico ainda é verificar que o regresso de Veiga Ferreira à edição, com a Teodolito (chancela da Afrontamento), se faz justamente com uma novela de Vila-Matas que é uma espécie de extensão ou «anexo» ensaístico de Dublinesca. Coincidência ou justiça poética? Talvez ambas, muito ao jeito do que costuma acontecer nas obras do escritor catalão.
Perder Teorias começa com a chegada de um alter ego de Vila-Matas a Lyon, para participar num encontro internacional de literatura «sobre as relações entre a ficção e a realidade». O escritor, transportado por um taxista português algo «burgesso», que só recebeu a carta de condução há três dias e a quem ele explica que «nós, a humanidade, não seríamos nada sem a linguagem», descobre, ao chegar ao hotel, que a organização se esqueceu de o receber. Incógnito e resignado ao papel de «alguém que espera», fecha-se no quarto e aproveita o tempo livre para esboçar uma teoria geral do romance no século XXI, assente em elementos «irrenunciáveis» e «imprescindíveis», como a «”intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)», as ligações com a grande poesia, a prevalência do estilo sobre a trama (tendo como mote uma frase de John Banville: «O estilo avança dando passos largos triunfais, a trama caminha atrás, a arrastar os pés») ou a «consciência de uma paisagem moral nociva».
A principal referência para esta teorização é o romance O Mar das Sirtes, em torno do qual o narrador se demora, vendo nele um precursor das tendências narrativas actuais, na medida em que o livro de Julien Gracq, embora publicado em 1951, soube «pressentir» e percepcionar o futuro. Trata-se de uma obra que «não se alimenta apenas dos materiais que a vida lhe proporciona, mas como que também cresce, misteriosamente, sobre outros livros». Uma característica, bem o sabemos, do próprio Vila-Matas, que não deixa aqui de «crescer» sobre textos e ideias de Kafka, Rimbaud, Charles Simic ou Ricardo Piglia.
O tema central de Perder Teorias é a reflexão, nada exaustiva e razoavelmente desconfiada, sobre o «sentido da espera nessa longa espera que é a vida». Sempre à deriva, caótico, selvagem, divertido, Vila-Matas faz deste seu livrinho vermelho uma defesa da importância de construirmos teorias explicativas, nem que seja para as abandonarmos à primeira oportunidade, em troca da «grande liberdade do espírito vago, disponível para tudo menos para outra teoria».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

3 Responses to “A longa espera”

  1. Maria Manuel on Outubro 18th, 2011 14:29

    gostei do seu texto, fiquei com vontade enorme de adquirir o livro, mas ultimamente fui cortando despesas… quem sabe, mais tarde.
    é que, embora só tenha lido algumas obras de Enrique Vila-Matas, comecei a gostar da sua escrita desde a primeira, penso que “Estranha forma de vida”, onde se questiona também a relação literatura – realidade.

  2. fallorca on Outubro 18th, 2011 22:17

    Bela «apresentação», Zé Mário
    Abraço :)

  3. imo on Outubro 19th, 2011 10:02

    Mal posso esperar por esta aquisição. Um grande bem-haja!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges