A luz forte da auréola

A Vida da Poesia
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 398
ISBN: 978-972-37-1364-0
Ano de publicação: 2009

«Falar sobre poesia parece-me tão natural como fazê-la», escreveu Gastão Cruz num breve testemunho publicado na revista Relâmpago, em 2000. De facto, o autor de Repercussão vem mantendo as duas actividades em paralelo, como faces da mesma moeda, e a complementaridade entre a sua obra poética e a reflexão teórica é particularmente evidente em A Vida da Poesia, o volume que reúne o essencial da sua produção crítica entre 1964 (três anos após a estreia literária, na publicação colectiva Cadernos de Poesia 61) e 2008.
Acrescentando mais de três dezenas de textos, escritos na última década, ao corpus das duas edições de A Poesia Portuguesa Hoje (a primeira, de 1973; a segunda, de 1999), esta súmula permite confirmar a persistência dos seus pontos de vista, que um «certo número de repetições e insistências temáticas» apenas reforçam. Pensadas para circunstâncias tão diversas como entregas de prémios, prefácios, obituários, evocações, programas de espectáculo ou artigos de imprensa, estas abordagens são colocadas por Gastão Cruz no mesmo plano dos poemas sobre os quais se debruçam e sujeitas a um crivo estético igualmente apertado. «A tensão e o rigor exigidos para o poema deverão igualmente consolidar a reflexão que toma por objecto a poesia: um texto de que a emoção não pode estar excluída e em que o poder da palavra continua a ser essencial. Falar de poesia, se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante que tantas vezes encontramos na chamada crítica de poesia.»
Um tópico recorrente é o declínio da poesia portuguesa contemporânea, quando comparada com as gerações anteriores, às quais são dedicadas a maior parte destas páginas (Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Cesariny, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava). Para Gastão Cruz, falta «densidade» e «espessura verbal» aos poetas de hoje, muitos dos quais «supõem que escrever poemas é alinhar um fraseado frouxo, de decrépitas imagens e metáforas exaustas». Apontadas as excepções a este «definhamento da linguagem poética» (Luís Quintais, Daniel Faria, José Tolentino Mendonça, Rui Coias), não é difícil entender quem fica na mira: o grupo dos «poetas sem qualidades», agrupados em torno de Manuel de Freitas e verberados de forma nem sempre subtil. No prefácio, Gastão acusa: a baudelairiana «perda de auréola» passou a ser uma «justificação para a mediocridade instalada» e «para a imposição de uma “poesia” light». O desfecho do raciocínio tem tanto de irónico como de declaração de guerra: «Tentei, nestes textos, dizer alguma coisa sobre poetas que, com a sua auréola, iluminaram a minha existência. Não a tinham perdido, nem creio que a venham a perder: alguns leram-me a sua poesia, ou mostraram-ma, acabada de ser escrita – e, lembro-me bem, uma luz forte irradiava deles.»

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 78 da revista Ler]



Comentários

One Response to “A luz forte da auréola”

  1. Mário Martins on Julho 19th, 2009 0:34

    O livro “A vida da Poesia” é absolutamente essencial para todos os que dedicam a sua vida, grande parte dela, ou apenas somente a melhor parte dela, às “coisas da poesia”. Fornece um conjunto de textos críticos reunidos que suscitam em qualquer pessoa um conjunto de leituras obrigatórias para compreender, não apenas a modernidade, mas os reais problemas universais da poesia, como seja a sua aparição, isto é, a sua manifestação espontânea, bem como o que dela têm feito os contemporâneos. A expressão “discurso poético” é repetida vezes sem conta, a qual, certamente, pouco diz a muitos contemporâneos que não conseguem distinguir coisas tão simples como o “quotidiano” e o “banal” e, portanto, pensam que a poesia se faz tão-somente de “irreverências” e “pseudo-experimentalismos” que não passam de reflexos duas coisas: pouca ou nenhuma leitura; leituras diagonais. Não compreenderão eles – e talvez nunca venham a compreender – que a poesia é feita da “matéria universal” que lhe dá uma frescura impossível, como se o tempo não tivesse efeito sobre ela: o discurso. Foi isso que os poetas da modernidade fizeram – criaram um novo discurso. Deixo a pergunta: Que têm feito a esmagadora maioria dos poetas contemporâneos?

    Gastão Cruz mantém a coerência quanto às suas “visões” daquilo que foi a modernidade no panorama literário do século passado, não escondendo um fascínio muito particular pelas décadas de 50/60/70, que não serão as únicas, mas talvez sejam as essenciais (ou não tivesse ele desabrochado para a poesia nessas épocas tão poeticamente privilegiadas). Não obstante, não se abstém de referências mais afastadas, mas tão felizes, como sejam Cesário Verde (quem é que verdadeiramente o leu?) e António Nobre. É igualmente fiel quanto à ideia que há muito vem sufragando acerca da poesia contemporânea e do que dela (da poesia em geral) têm feito alguns. No meu modo de ver, Gastão Cruz não falha uma única palavra a esse respeito, das quais, se me permite, citarei apenas algumas:

    “O caos crítico é demasiado grande, as antologias em circulação autênticas aberrações, mais caixote do lixo de mediocridades, quando não mesmo galeria de horrores, que rigorosa selecção do que é efectivamente valioso ou importante, as histórias de literatura manifestam total incompetência em relação ao sector da poesia contemporânea.”

    “Não admira que tudo isto se reflicta nas próprias características de certa poesia recente, que perdeu o sentido da criação de uma linguagem e de um mundo originais (não há verdadeiro poeta que o não tenha) e confunde poesia do quotidiano com banalidade, ou realismo e despojamento com lugar-comum e incapacidade de invenção verbal.”

    Não quero fazer deste meu singelo comentário uma crítica literária, deixo isso para os que realmente sabem do que falam, por isso termino aqui esta intervenção e aproveito para dar os parabéns pelo excelente blog que aqui tem e que só recentemente descobri. Pode contar com mais visitas da minhas parte!

    Cumprimentos.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges