A maldição dominicana

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao
Autor: Junot Díaz
Título original: The Brief Wondrous Life of Oscar Wao
Tradução: Victor Cabral
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 294
ISBN: 978-972-0-04148-7
Ano de publicação: 2009

Quando se estreou com uma colectânea de dez contos breves (Drown), em 1996, Junot Díaz foi logo saudado pela crítica literária mais exigente e apontado como uma das maiores esperanças da literatura norte-americana contemporânea (um daqueles epítetos que já assassinaram, à nascença, muitos talentos; mas, felizmente, não este). Nas suas narrativas sobre rapazes dominicanos à procura de rumo nas margens da sociedade, prosas ao mesmo tempo cruas e líricas, Díaz distinguia-se tanto por um extraordinário domínio da linguagem como pelo modo subtil como subvertia os estereótipos associados à comunidade a que pertence: a dos imigrantes latinos. Em Aurora, por exemplo, um conto seleccionado por Richard Ford para o The Granta Book of the American Short Story (2007), assistimos, em curtos fragmentos, à história de amor e violência que une um dealer e uma rapariga sem tino, em apartamentos vazios que ocupam às escondidas, enquanto alimentam, contra todas as evidências, o sonho de se parecerem com «pessoas normais».
Protagonista de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, o muito aguardado primeiro romance de Díaz, que só viu a luz 11 anos após Drown (compensando a longa espera com uma braçada de prémios, do National Book Critics Circle Award ao Pulitzer de Ficção), Oscar também não corresponde à imagem de uma «pessoa normal». Rapazinho obeso e cheio de complexos, ele é um «cromo» típico, um «introvertido social» viciado em livros de ficção científica, filmes apocalípticos e paixões platónicas. Em vez de sair para fazer asneiras, como os outros miúdos da sua idade, fecha-se em casa a escrever, deixando que o tempo passe e que se agigante o seu maior temor: ficar virgem para sempre. Uma perspectiva sombria, agravada pelo facto de ser «contra as leis da Natureza que um dominicano morra sem foder pelo menos uma vez».
A esta linha narrativa principal, patética e divertida, Díaz sobrepõe outras, de tons mais negros ou brutalmente trágicos. Se a família de Oscar vive em New Jersey, as raízes continuam na República Dominicana, onde a mãe e a abuela, La Inca, sofreram na pele o terror inominável da ditadura de Rafael Leónidas Trujillo e seus sequazes. De uma forma ou de outra, tanto Oscar como os seus parentes são «filhos» do fukú, a maldição milenar que Colombo terá trazido para o Novo Mundo e de que Santo Domingo foi o «Ground Zero». É o percurso desse fukú, real ou metafórico, que o romance mapeia, com um fulgor contagiante e assimilando tudo pelo caminho, do calão dos subúrbios à cultura pop, de referências inesperadas (videojogos e muito Tolkien) a exercícios meta-literários dignos de David Foster Wallace (as quilométricas notas de rodapé).
Em suma, Junot Díaz fez jus às esperanças que nele foram depositadas. Contudo, ao escrever numa espécie de spanglish e ao torcer a sintaxe (ou as expressões idiomáticas) até ao limite, também complicou muitíssimo o trabalho dos tradutores. Há uma parte da energia e do brilho deste livro que se perderá sempre na passagem para outras línguas. No caso português, Victor Cabral conseguiu manter quase sempre o ritmo e a respiração originais, embora o seu esforço fique manchado por algumas imprecisões («peruviano» em vez de peruano, por exemplo) e erros de palmatória («plátano» em vez de banana).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges