A máquina da tragédia

O Chão dos Pardais
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: ASA
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-23-0654-4
Ano de publicação: 2009
No princípio há uma mulher gasta, vazia, a quem «nunca acontece nada», mas que se esmera para encontrar o presente perfeito para a festa do sexagésimo aniversário do marido. Ela, Alice, aprendeu com Afonso, logo no primeiro encontro, a «arte do silêncio» que lhes garantiu 35 anos de casamento inabalável, uma harmonia feita de tédio e resignação. A ele, porém, acontecem-lhe coisas. Poderoso executivo, habitado pelo pânico de envelhecer (esfalfa-se no ginásio até ao limite), dorme com raparigas muito mais novas em hóteis de cinco estrelas, no estrangeiro. Há depois os filhos: Manuel, cirurgião plástico em risco de ser condenado por negligência, envolvendo-se emocionalmente com uma mulher que só conhece das salas de chat; e Clara, tradutora frustrada, fantasiando uma paixão erótica por Elisaveta, empregada doméstica da mãe, uma resistente que fugiu à fome e ao frio de Viltz – imaginária cidade de Leste, perdida na neve e na miséria.
As personagens centrais, e as outras que gravitam em torno destas, revelam uma previsibilidade próxima do estereótipo. E isto acontece porque Dulce Maria Cardoso, mais do que pelos dramas e contingências existenciais de cada uma delas, interessa-se pelo quadro geral, pelas interacções num campo de forças em que o amor e o ódio se anulam. O seu microcosmos é observado de longe, de fora (como a festa em que o nó narrativo se ata), porque apenas à distância pode a autora entrever, na máxima amplitude, o cenário e a configuração das ignomínias («todos cometemos actos torpes») a que se entregam as suas criaturas e dos falhanços, individuais ou colectivos, que os atingem. Falhanços que a «máquina da tragédia», posta em andamento pela mais básica das emoções (o ciúme), vem iluminar em toda a sua crueza numa cena antológica.
De certo modo, este é um livro sobre a desistência. Sobre quem desiste de matar e quem desiste de viver. Sobre a impossibilidade de conhecer o que há de verdadeiro numa existência biografável (porque o ser humano é radicalmente opaco) e sobre a dificuldade dos corpos lidarem uns com os outros. Desacertos que este belo romance fixa com melancolia e exactidão: «O ódio precisa de ser alimentado e o silêncio é uma maneira bastante eficaz de o fazer. Caso enfraqueça, o ódio transforma-se numa mágoa que contrai um bocadinho o estômago ou amarga um bocadinho a boca. Nada mais. Ao contrário do ódio, a mágoa é muito desinteressante. Há tanto para dizer sobre as mágoas como há a dizer sobre os sapatos que apertam demasiado. Nem uns nem outros matam e nem uns nem outros dão vontade de matar.»
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no número 86 da revista Ler]
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