A matéria da memória

Cartas do Meu Magrebe
Autor: Ernesto de Sousa
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 142
ISBN: 978-989-671-091-0
Ano de publicação: 2011
Hoje infelizmente pouco lembrado, Ernesto de Sousa (1921-1988) foi um artista pluridisciplinar que se dedicou à fotografia, ao cinema, ao teatro e às artes visuais de vanguarda, depois de ter sido, ainda na década de 40, um pioneiro dos cineclubes. Dom Roberto, a sua única longa-metragem, esteve na origem – junto com Os Verdes Anos, de Paulo Rocha – do chamado Novo Cinema Português. Premiada em 1962 no Festival de Cannes, onde o realizador não esteve presente porque a PIDE o prendeu na fronteira, a obra viria a ser escolhida, nesse mesmo ano, para a International Filmweek de Manheim. Com o objectivo de financiar a deslocação à Alemanha, Ernesto de Sousa empreendeu uma outra viagem, a Marrocos e Argélia, pretexto para uma série de crónicas publicadas no Jornal de Notícias. Assim surgiram As Cartas do Meu Magrebe, agora editadas em livro pela Tinta da China, incluindo as que foram censuradas e permaneciam inéditas.
Embora interessantes, as crónicas marroquinas não trazem nada de novo. Aborda-se a amizade dos homens que andam de mãos dadas na rua, o dúbio «encanto da mulher velada», os rituais da hospitalidade, a miséria dos bidonvilles, a arquitectura, o chá de hortelã e encontros significativos de sinal oposto (a gentileza de um artesão pobre; a fúria de um aguadeiro que não queria ser fotografado). Só quando entra na Argélia, ainda com muitas marcas da recente guerra de Independência, é que a escrita ganha outra espessura. De Tlemcen a Argel, passando por Orão, Ernesto de Sousa mede o pulso a um país a começar do zero, contraditório mas cheio de esperança. E fá-lo misturando habilmente os tempos das suas deambulações, «porque a memória é a matéria, e o vivido um intervalo dela».
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
One Response to “A matéria da memória”
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Um muito interessante ensaio sobre Ernesto de Sousa, da autoria de Mariana Pinto dos Santos: http://unl-pt.academia.edu/MarianaPintodosSantos/Papers/126829/Neo-realismo_em_Ernesto_de_Sousa_Raizes_de_um_percurso_insolito
De passagem: por que não uniformizar os topónimos? Se grafa Orão talvez fosse coerente Tremecém, em lugar de Tlemcen. Detalhes, de qualquer forma.