A matéria mais volátil

Depois de Dezembro
Autor: António Carlos Cortez
Editora: Licorne
N.º de páginas: 73
ISBN: 978-972-8661-55-7
Ano de publicação: 2010

Na sua escrita, tanto a poética como a de reflexão teórica ou crítica, António Carlos Cortez nunca escondeu uma afinidade com o projecto estético de dois autores: Ruy Belo e Gastão Cruz. Em Depois de Dezembro, essa filiação é assumida de forma explícita na sequência intitulada “Alegações Finais”, onde a dado passo se lê: «A vida que nos textos se esconde será aquela / que verdadeiramente em relação à vida / se revela? Talvez concorde quanto à divergência / das duas linhas – a vida, a poesia – de que falas / no livro as leis do caos».
Esta «divergência» como que irradia do diálogo com Gastão Cruz para o resto do livro, que de várias formas vai demonstrando a incapacidade da linguagem para captar a «matéria mais volátil» de que são feitos os dias. Sujeita à erosão provocada pela «água do tempo», a biografia só pode ser «inventada» e o poema passa a ser o lugar da «solidão implacável», em que a realidade se reduz à «arte torpe das palavras», feita sob uma luz «enganadora».
Há como que um paradoxo: por muito que o poeta use uma «lente de aumentar» (a poesia), «a imagem diminui / agora o mundo». O gradual fechamento não impede, ainda assim, a circulação de certas imagens e temas: a ideia de regresso, o espaço da casa, o amor, o vento, a perda, o rio, a memória. E se a desconfiança em relação ao poder das palavras atravessa todo o livro, ela é de certa forma contrabalançada, no belo poema final (Resposta a Drummond), pela «crença de que o canto estale / e o dia venha porque nós lutamos / para além das forças que supomos nossas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges