A música certa

Poesia Reunida
Autora: Maria do Rosário Pedreira
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 256
ISBN: 978-989-722-047-0
Ano de publicação: 2012

Os três primeiros livros de poesia de Maria do Rosário Pedreira – A Casa e o Cheiro dos Livros (1996); O Canto do Vento nos Ciprestes (2001); e Nenhum Nome Depois (2004) – encontravam-se há muito tempo esgotados, pelo que a sua reunião num só volume de Poesia Reunida, com chancela da Quetzal (um regresso a casa ao fim de 15 anos), permitirá a muitos leitores um grato reencontro e a outros uma importante descoberta.
Não tendo sofrido qualquer tipo de «revisão, corte ou acrescento», estes livros iniciais permitem comprovar a constância dos temas e a consistência do dizer poético de Maria do Rosário Pedreira. Com subtis variações ou deslocamentos, os poemas são o testemunho e a expressão de um amor que é vivido até ao limite, quase sempre em estado de perda. No prefácio, Pedro Mexia assinala que «esta poesia não teme o trágico nem o ridículo, que é o trágico visto de fora». Ou seja, entrega-se de peito aberto a um «ultra-romantismo» arriscado, sem nunca cair na facilidade do mero derrame sentimental (mesmo se dele escapa, por vezes, apenas in extremis). O segredo está na ênfase recatada desta voz que se maravilha e desilude, uma e outra vez, com a improbabilidade do encontro de duas vidas, dois tempos que se unem, para depois voltarem a bifurcar-se, deixando as feridas da ausência, da solidão e da espera.
O que se define nesta poesia é uma paisagem emocional carregada de sinais (os objectos, os cheiros, as memórias que deixamos na casa e nos corpos), uma linguagem capaz de captar e decifrar as mais ínfimas vibrações que os amantes despertam um no outro:

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Aos livros conhecidos, Maria do Rosário Pedreira acrescenta um conjunto de inéditos (A Ideia do Fim), onde descobrimos, em vez da falta, uma espécie de plenitude. O amor continua a ser uma violência, mas uma violência tranquila. A «desordem» do tempo em que «andava de ferida em cicatriz» ficou para trás. A ambição pode resumir-se a «ser velhos juntos nos degraus da casa», e é a própria «ideia do fim» que traz consigo «a música certa para os meus versos».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges