A música das esferas

collins

Amor Universal
Autor: Billy Collins
Título original: Aimless Love – New and Selected Poems
Tradução: Ricardo Marques
Editora: Averno
N.º de páginas: 293
Depósito legal: 383222/14
Ano de publicação: 2014

Nascido em 1941, Billy Collins é um caso singular na poesia contemporânea americana. Consagradíssimo entre os seus pares (foi Poeta Laureado dos EUA entre 2001 e 2003), académico respeitado, colaborador frequente da New Yorker, ele estabelece uma raríssima ponte entre a alta cultura e o público generalista. Se os livros passam o escrutínio dos críticos mais exigentes, rendidos ao alto grau de conseguimento estético de uma obra exemplar, Collins consegue igualmente reunir multidões de leitores e ouvintes, nas salas esgotadas onde faz as leituras públicas dos seus textos.
Em 2013, juntou 50 poemas novos a uma antologia generosa dos quatro livros anteriores: Nove Cavalos (2002), O Problema da Poesia (2005), Balística (2008) e Horóscopo para os Mortos (2011). Esse volume, Aimless Love, com perto de 300 páginas, acaba de ser editado em português numa cuidada edição bilingue, graficamente impecável (da belíssima capa à paginação elegante, os versos em inglês aparecendo em letra minúscula, no fundo da página) e com uma boa tradução. Dizer que se trata de um acontecimento editorial é pouco. Billy Collins é um dos maiores poetas do nosso tempo. Disponibilizá-lo finalmente aos leitores portugueses afigura-se-nos um inestimável serviço público.
O que torna Collins o poeta perfeito para quem não gosta de poesia (ou julga que não gosta) é a sua desarmante, e quase sempre ilusória, simplicidade. Não há nos seus poemas quaisquer efeitos de ocultação e opacidade, tudo se expõe com fulgurante clareza, sem necessidade de complexas exegeses. Collins canta o «amor pelas coisas quotidianas», é um homem muito atento à realidade que o cerca, aos seus ruídos, aos seus fulgores, às suas harmonias e dissonâncias. Mas é sobretudo um poeta capaz de captar o espanto na sua dimensão mais directa, quase física. Entrega-se, no fundo, a uma espécie de alquimia serena em que a matéria das existências banais se transforma noutra coisa qualquer, muitas vezes indiscernível, mas que as transcende, a essas vidas normais que são as vidas de todos nós.
Aos poetas, sugere-nos Collins, cabe o dever de olhar, de estarem «às suas janelas», sem fazerem nada mais do que observar o mundo, uma vez que é esse «o trabalho pelo qual não são pagos». A janela: eis o instrumento lírico por excelência, «porque há sempre algo para ver». E pode ser um pássaro que ficou preso dentro de casa, até que o poeta o embrulha numa camisa, entre «espasmos de bater de asas», libertando-o por fim no jardim, só para ficar a sentir durante o resto do dia «o seu vibrar selvagem / contra a palma das mãos».
Minuciosamente construídos, verso a verso, como quem esculpe um bloco de mármore (lá dentro uma «figura encerrada e ainda por revelar»), estes poemas são lugares onde o que há de mais inefável e frágil – vozes, corpos, presenças – pode ser resgatado e permanecer ao abrigo da usura do tempo, das devastações da memória. Caminhadas junto ao lago, contemplação de nuvens, cidades (Paris, Istambul, Palermo, Roma), jogos infantis, parábolas, questões metafísicas, súbitos impasses ou epifanias. Muitas vezes, assistimos ao fazer do próprio poema: o caderno, a «caneta em movimento», o «lápis de grafite macio» pronto para a anotação, o candeeiro de mesa que ilumina a escrita noite dentro e por isso merece uma ode (começa assim: «Oh luz fiel, sob a qual escrevi / e li durante todas estas décadas»).
Collins tem consciência dos sortilégios em que mergulha o leitor, mas isso nunca o conduz aos labirintos do comprazimento ou da auto-indulgência. Pelo contrário, há sempre nele um impulso irónico que lhe permite evitar a tentação da solenidade. Num dos textos de reflexão sobre o seu ofício, explica que «o problema da poesia é que / ela estimula a escrita de ainda mais poesia, / mais peixinhos a encher o tanque». E essa proliferação é sempre perigosa. Sabendo que tudo se pode transformar num poema de Billy Collins, as pessoas aproximam-se de Billy Collins e dão-lhe ideias. Se há uma simulação de incêndio, sugerem-lhe que escreva um poema sobre isso. Ou sobre aquele dirigível lá no alto, o café entornado, um rosto coberto de tatuagens. Ele conclui: «Talvez devesse escrever um poema / sobre todas as pessoas que pensam / que sabem sobre o que é que eu deveria escrever».
Felizmente, o poeta é imune a todos esses ricochetes e efeitos colaterais. Ele come sozinho, bebe sozinho, contempla sozinho, escreve sozinho. Só assim consegue escutar, no meio do ruído da modernidade, «o som que ninguém nunca ouve / porque está a ser transmitido desde sempre» e por isso «soa ao mesmo que o silêncio». Ou seja, a intangível música das esferas, sempre presente e ignorada, mas que, caso deixasse de existir, «então as pessoas iriam parar / nas ruas e olhar para cima». É essa música que atravessa estes poemas. É essa música que Collins – subtilmente, magistralmente, genialmente – consegue fazer-nos ouvir.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges