A ternura e o terrível

A Pantera
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-641-236-4
Ano de publicação: 2011
Para os leitores fiéis, o universo ficcional de Ana Teresa Pereira (ATP) é uma paisagem imediatamente reconhecível. Entra-se num livro da autora madeirense como não se entra em mais lado nenhum. De livro para livro, há personagens que regressam obsessivamente, circularidades, repetições, simetrias, imagens que funcionam como leitmotifs (o nevoeiro, o castelo, o lago, a neve, o colar de prata com um nó celta). Enfim, uma atmosfera romântica saturada de referências literárias e pictóricas (maioritariamente britânicas), cenário para relações impossíveis, quase sempre entre mulheres jovens e homens mais velhos. É como se houvesse um continuum narrativo que atravessa toda a obra de ATP, uma mesma história de «inquietante estranheza» que vai sendo contada em sucessivas variações.
À semelhança de Quando Atravessares o Rio (2007), a protagonista desta nova ficção é uma escritora (Kate) que transforma o actor com quem se envolve (Tom) em personagem do seu livro. Mas a obra anterior com que A Pantera dialoga mais explicitamente é Inverness (2010). Não só porque parte da acção decorre na mesma casa de campo (Owl Cottage) e seu jardim luxuriante, mas porque coincidem no tema central: a dificuldade de separar a realidade da imaginação quando os dois planos se confundem.
Num caso como no outro, o corolário desta ambiguidade é a tentação do artifício («Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa»). O estilo «simples» esconde uma estrutura densa, complexa, onde coexistem «a ternura e o terrível», bem como o pânico de enlouquecer, de cair nesses «lugares escuros» onde nos defrontamos com os nossos «demónios». É um «jogo cruel», sim, mas cheio de beleza.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
One Response to “A ternura e o terrível”
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Bem, amanhã lá terei de comprar o jornal!
Aplaudo sempre Ana Teresa Pereira