A terrível simetria

Seminarista

O seminarista
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Sextante
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-676-023-6
Ano de publicação: 2010

O protagonista e narrador deste romance de Rubem Fonseca é um assassino a soldo, «conhecido como o Especialista» por ser o melhor no seu ofício. De tempos a tempos, recebe encomendas de um misterioso Despachante para fazer «serviços específicos», executados com eficácia, inteligência e sem quaisquer sentimentos de culpa («para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência»).
Nos primeiros capítulos, o Especialista começa por explicar como realizou alguns dos trabalhos. Se os «fregueses» (nome dado às vítimas) merecem de facto morrer é questão que não o preocupa, mas claro que prefere eliminar «gente ruim» – um pedófilo, um violador de cadáveres roubados no cemitério, um outro assassino profissional –, embora não fique sem dormir por abater à queima-roupa alguém que se mascarou de Pai Natal ou um «freguês» que se desloca em cadeira de rodas, mais a sua enfermeira. O modus operandi, esse, não varia: «Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»
Um dia, decide retirar-se. Com o rendimento dos trabalhos, pagos a peso de ouro, juntou um bom pé-de-meia. Agora quer gozar a vida. Ex-seminarista ateu (do seminário, guardou apenas o hábito de fazer citações em latim), as coisas de que mais gosta são: o cinema (em DVD); a literatura (sobretudo poesia); e ir para a cama com mulheres – não necessariamente por esta ordem. Gosta ainda de vinho, de árvores, de futebol (é torcedor do Vasco da Gama) e de ouvir rock muito alto no mp3. Todo um programa para uma reforma dourada.
Acontece que a condição de assassino não se abandona assim com tanta facilidade, especialmente quando lá para trás ficaram problemas mal resolvidos. Por muito que o Especialista mude de nome (passa a chamar-se José Joaquim Kibir, em homenagem a um antepassado que escapou da «carnificina de Alcácer-Quibir», essa batalha em que «Portugal se fodeu») e se apaixone por uma alemã que adora Clarice Lispector, a «terrível simetria» da pistola Glock volta a arrastá-lo para o mundo negro dos crimes de sangue.
O que se segue é uma intriga complicada em que toda a gente quer matar toda a gente, um novelo tarantinesco de traições e ajustes de contas sucessivos (um pouco à maneira do que Dinis Machado fez em Blackpot), trama algo caótica e completamente inverosímil, culminando num crescendo de violência – profusão de dedos partidos, balas nas têmporas, línguas cortadas, choques eléctricos nos testículos, olhos furados – que funciona como uma paródia do thriller e seus lugares-comuns, sublinhados pelo recurso à ironia e ao exagero. O que importa aqui verdadeiramente, porém, é a escrita, a linguagem flexível, precisa e inventiva de Rubem Fonseca, a sua prosa cantabile, os seus magníficos diálogos.
Aos 85 anos, Fonseca continua a ser um dos maiores mestres no uso da língua portuguesa. E O Seminarista, mesmo ficando aquém de outros romances seus, como A grande arte ou Bufo & Spallanzani (a editar pela Sextante em Fevereiro de 2011), é uma prova eloquente dessa mestria.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “A terrível simetria”

  1. isabel ribeiro on Setembro 21st, 2010 23:56

    Como sempre, Rubem Fonseca marca pontos com a sua mestria no uso da palavra..Vai para a lista do 14º. Será que o vamos ter?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges