A vã cobiça

Quando o Diabo Reza
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 164
ISBN: 978-989-671-100-9
Ano de publicação: 2011

Depois de um excelente livro de contos publicado já este ano (O Homem do Turbante Verde, Caminho), Mário de Carvalho regressa às lides com um texto que podemos designar como romance curto ou novela avantajada: Quando o Diabo Reza, segundo título da nova colecção de ficção portuguesa da Tinta da China. Avesso às tipologias habituais, o autor preferiu chamar-lhe «vadiário breve» (e não faltam vadios e vadiagens nestas páginas), como a outros livros chamou «cronovelemas», mas tais epítetos são o que menos importa quando estamos na presença de um prosador de tão alta estirpe. Mário de Carvalho até podia escrever sobre a vida sexual das moscas da fruta, a arte de coser redes de pesca ou o funcionamento da bolsa de valores de Tóquio. Fosse como fosse, brilharia a escrita, esse manejo da língua portuguesa que é sempre um verdadeiro festim, um antecipado regalo.
Desta vez, a trama novelesca resume-se a uma divertidíssima e sarcástica aproximação a vários tipos de cobiça, com o furor de uma campanha eleitoral em fundo. No centro da narrativa está um velho endinheirado, dono de várias drogarias de bairro, cuja fortuna tolda a cabeça das duas filhas: Beatriz, em ânsias de visitar Cuba (cenário das suas fantasias eróticas), e Ester, que traz na ideia o sossego de viver numa casa de campo com telha preta. Paralelamente, Abreu, um bom malandro em liberdade condicional, engendra tortuoso plano para se apropriar do património do velho, esquema que envolve um pintas bem falante (Bartlo) e uma moça voluptuosa (Cíntia), ambos devidamente enfarpelados. Sem grande surpresa, no fim todos ficam a arder, tanto familiares como larápios, mas o gozo está todo no modo como somos conduzidos, de trapalhada em trapalhada, até esse previsível desfecho. Um gozo que é antes do mais vocabular: «No fundo, invejava aquele desembaraço com que Bartlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura, e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estivesse em volta. Não era grande cabeça pra meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges