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A vida material

Artefactos Importantes e Objetos Pessoais da Coleção de Lenore Doolan e Harold Morris, Incluindo Livros, Roupa e Acessórios
Autora: Leanne Shapton
Título original: Important Artifacts and Personal Property from the Collection of Lenore Doolan and Harold Morris, Including Books, Street Fashion, and Jewelry
Tradução: Luís Santos
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 131
ISBN: 978-972-25-2383-7
Ano de publicação: 2012

Nem sempre as excelentes ideias para livros dão livros excelentes. Na maior parte dos casos, quando os romances conceptuais fracassam não é pelo facto de correrem riscos, ou por tentarem inovar a todo o custo (através de estruturas narrativas heterodoxas, experimentações com a linguagem, etc.), mas porque se mostram incapazes de transformar um conceito forte numa obra consistente, uma obra que faça sentido e tenha valor estético. O primeiro romance de Leanne Shapton parte justamente de um conceito forte: contar a história de uma relação amorosa a partir dos objectos que o casal decide leiloar, quando tudo acaba. Assumindo a forma de um catálogo, com mais de 300 lotes minuciosamente descritos, o livro obriga o leitor a navegar por entre os registos da vida material dos amantes, procurando nas entrelinhas do que é dito de forma sucinta nas fichas (e sobretudo nas marcas deixadas em cada uma das coisas que os rodearam durante aqueles quatro anos em comum), o rasto da vida sentimental das personagens.
Como outras ideias muito boas e originais, esta também parecia condenada ao desastre. Mesmo aceitando o pacto ficcional que implica a famosa «suspensão da descrença», quem é que acredita num leilão que põe à venda por 20 dólares impressões em papel de e-mails inócuos, trocados entre uma mulher e um homem absolutamente normais, além de um monte de tralha usada ou kitsch que a maior parte das pessoas não aceitaria nem de borla? Temos a sensação de que há qualquer coisa de artificial neste empreendimento. E no entanto, quando avançamos na leitura, tudo parece de repente plausível, verosímil, verdadeiro. É esse o grande triunfo de Shapton: envolve-nos no seu labirinto de fragmentos, revela-nos pouco a pouco – sempre de forma implícita – os contornos de uma intimidade em construção (e depois em crise), nunca deixando de conferir à experiência um estranho realismo.
Este efeito de real nasce essencialmente do rigor com que Shapton descreve os objectos – seja o conteúdo de um estojo de viagem, o casaco de astracã, um conjunto de óculos de sol ou os livros onde se escondem cartas por enviar – e os efeitos neles provocados pelo tempo e pelos corpos: os vincos, as manchas de humidade, os «pequenos orifícios de pioneses nos cantos» de uma fotografia. Um pijama de homem, por exemplo, revela «algum uso, alguns buracos e nódoas» (isto é, algum desleixo). Um livro de arte apresenta «sobrecapa e lombada com cortes» e o «canto da página 140 foi dobrado» (nessa página está representada uma estatueta de mulher nua que, diz Harold a Lenore, «faz-me pensar em ti»).
Harold é um fotógrafo sempre em viagem, algo fechado e não muito imaginativo (o seu projecto pessoal consiste em fotografar os tectos dos muitos quartos de hotel por onde passa). Lenore é uma jornalista que escreve sobre bolos no New York Times e usa as suas crónicas como sismógrafo da relação. Através dos postais, livros, discos, excertos de diários, cadernos com anotações avulsas, etiquetas post-it e conversas rabiscadas em programas de teatro, vamos assistindo ao arco completo da sua trajectória amorosa, dos jogos de sedução no início aos sinais de alarme mais adiante, que não evitam o descarrilamento final. É uma história batida, mil vezes contada, mas nunca desta forma tão subtil, elíptica, divertida e, quando menos esperamos, comovente.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “A vida material”

  1. Leanne Shapton: “Todos nós temos coisas que demarcam a nossa memória; criamos verdadeiros relicários com elas” | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 17th, 2012 17:51

    [...] A vida material [...]

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