A voz das coisas

manhã

Manhã
Autora: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 126
ISBN: 978-972-37-1809-6
Ano de publicação: 2015

O dispositivo narrativo de Manhã não podia ser mais transparente. Adília Lopes olha para trás, escolhe momentos, e detém-se nessas clareiras do passado apenas o tempo necessário para captar uma atmosfera, uma fulguração, um rasto. Nada aqui é sistemático ou sequer cronológico, o que impera é a volúpia da recordação pela recordação, muitas vezes involuntária, como quem mordisca uma madalena proustiana sem se preocupar com as reminiscências que ela provocará.
A primeira memória circunscreve logo o horizonte desta escrita: «Em Colares, vi um bulldog branco anão em cima de uma coluna branca no jardim de uma vivenda. É a minha recordação mais antiga. É estranha. Parece inventada. Mas não é.« Ou seja: o mais estranho pode ser o mais verdadeiro. Quase no fim, lê-se: «Não se mistura a realidade com a ficção». Há nisto a força de um mandamento. Se é da vida que se fala, toda a literatura está em dizê-la como foi, sem filtros nem artifícios.
Vemos então desfilar, como num vórtice, imagens atrás de imagens. A boneca de faiança na montra da padaria, o bolo de aniversário infantil coberto de pralines («esferazinhas prateadas sobre a neve (…) de claras em castelo e açúcar»), a pistola com lanceta que pica os dedos por causa da diabetes, o «biberon» para as bonecas (caído um dia do eléctrico em andamento, «e eu a ver o asfalto pela fresta a correr vertiginoso»), os olhos das moscas que «são uma maravilha», as palmeiras demasiado altas da Escola Politécnica, os livros do Tintin, da Enid Blyton e da Condessa de Ségur («Devo tudo à Condessa de Ségur»), um vórtice de coisas que de repente se organizam, vindas do passado, como constelações.
A poetisa chega-se à janela e debruça-se para escutar «a voz das cousas», mas também para se confrontar consigo mesma. «Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens, escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas. Estava apaixonada e não era correspondida.» Adília sempre escreveu este tipo de sinopses, mais literais e menos irónicas do que por vezes parecem, mas em Manhã a capacidade de síntese é levada ao extremo. Alguns poemas são mais breves do que um haiku. Penamacor: «Casas pardas / ruas tortas». Duas da tarde: «Um avião / um cão».
Por vezes, Adília assemelha-se a essa «escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta». Outras vezes, entrega-se à luxúria dos detalhes, de um discurso que se alimenta de si próprio. É de extremos, como na disciplina de geometria descritiva («ou tinha vintes ou tinha negativas»), ao ponto de a professora lhe dizer: «ó rapariga, tu és 8 ou 80». Tantos anos depois, a frase permanece, volta à tona, porque «é das coisas mais acertadas que há a dizer sobre mim».
Não há nisto, porém, qualquer fatalismo ou tristeza. Adília não se lamenta, nem se queixa. Pelo contrário, Adília brinca com as memórias, boas ou menos boas, Adília dança (ou melhor, dansa, «com s como a Sophia»), Adília ri-se dos outros e de si («Adília laughs»). Há mais luz do que sombras nestas páginas. Mas Adília também sabe como encostar-nos às cordas. Eis o Vazio em cinco linhas: «Aos 21 anos, a minha fotografia no bilhete de identidade sofreu uma reacção química, a minha cara desapareceu, ficou uma mancha castanha. Aos 39 anos, comprei um perfume na farmácia. Devia estar lá há muito tempo, não cheirava a nada.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “A voz das coisas”

  1. The Magician on Março 2nd, 2015 11:52

    Não cheirava a nada? E comprou-o, mesmo assim?! Não o experimentou antes?!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges