A voz vinda de uma nuvem

Outras vozes, outros lugares
Autor: Truman Capote
Título original: Other voices, other rooms
Tradução: Maria João Delgado
Editora: Sextante
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-989-676-003-8
Ano de publicação: 2009
Na sua elaboradíssima mitologia pessoal, Truman Capote (1924-1984) gostava de atribuir a uma epifania o primeiro impulso para o que viria a ser o livro Outras vozes, outros lugares, o seu fulgurante romance de estreia. Deambulando por uma floresta do Alabama, o então aspirante a escritor de quem se esperava muito, após a publicação de alguns contos muito bons em revistas, procurava soluções para uma narrativa em curso, mas que cada vez mais lhe soava a falsa partida (era Travessia de Verão, editado pela Dom Quixote em 2007, um manuscrito que chegou a ser dado como perdido durante meio século). Oportunidade para criar uma boa primeira impressão, já se sabe, só há uma; e Capote, do alto dos seus promissores e audazes 21 anos, não queria desperdiçar a sua. No tal passeio, deparou com um moinho abandonado nas margens de um rio e a descoberta teve o efeito da madalena proustiana, ao trazer à superfície uma torrente de memórias da infância, e com elas uma espécie de possessão literária, em que o imparável fluxo verbal parecia ser ditado, segundo o próprio, por «uma voz vinda de uma nuvem». Em suma, Capote entregou-se ao seu auto-induzido «coma criativo» e desse casulo viria a sair, como a borboleta da crisálida, o estranho universo de Outras vozes, outros lugares.
O protagonista da história é Joel H. Knox, um rapazinho de 13 anos, natural de Nova Orleães (como Capote). Quando a sua mãe morre, é chamado pelo pai, um homem que o abandonou quase à nascença e pretende agora reassumir os «deveres paternais tão esquecidos durante todos estes anos». Nas primeiras dezenas de páginas, o reencontro com o progenitor parece o eixo central desta história, mas assim que Joel chega finalmente a Skully’s Landing, nos confins do grande Sul, essa vaga ilusão de linearidade narrativa desfaz-se. O pai é afinal uma caricatura de si mesmo, um moribundo que não fala e só dá sinais de vida quando lança da sua cama bolas de ténis vermelhas, para chamar a atenção. E Joel descobre-se preso numa casa que se afunda literalmente na terra, um território de escombros físicos, mas sobretudo humanos (a madrasta austera, um primo asmático e às voltas com o amor mal resolvido por um pugilista mexicano, um velho negro chamado Jesus Fever), lugar onde toda a gente perde qualquer coisa, todos são vítimas de um qualquer desajuste, todos se desvanecem «como sombras na escuridão».
Mais do que um romance sobre a identidade e a libertação individual, este é um livro em que Capote exorciza os seus demónios, proclamando ao mesmo tempo, de forma ostensiva, o seu génio. Um génio em bruto, de escrita alucinada, excessivamente metafórica, absurdamente lírica, sempre em desequilíbrio. Mas que ainda nos comove – e nos arrebata.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no número 88 da revista Ler]
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