A vulnerável metafísica da terceira idade

maquina

a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “A vulnerável metafísica da terceira idade”

  1. Gabriela on Janeiro 26th, 2010 21:04

    Costumo passar por cá em silêncio, mas hoje não resisto a fazer um comentário.
    Li o Apocalipse dos Trabalhadores com alguns sentimentos contraditórios fortes e apesar de na balança final ter gostado do livro, não fiquei suficientemente seduzida para aguardar atentamente a obra seguinte do Valter.
    Com o teu post estava quase, mesmo quase a pensar arriscar esta leitura na próxima oportunidade, quando eis que deitas por terra o meu entusiasmo e recordas-me dos aspectos de que menos gostei no trabalho anterior dele.
    Fizeste-me rir.
    Já agora deixa-me aproveitar para dizer que apesar de andar por aqui caladita, gosto de te ler. Parabéns pelo blogue.

  2. henedina on Janeiro 26th, 2010 23:45

    O que é que deu aos autores para ser moda falar na velhice.
    Autores escrevem para as mulheres que são muitas e agora escrevem para aqueles que estão a envelhecer porque são muitos?
    Roth até a exaustão e muitos outros.
    Ter muitos anos é bom quer dizer que se viveu. Ter muitos anos e não se ter vivido isso sim é que pode ser mau.
    Medo, deve-se ter medo de ter medo não de envelhecer.
    Envelhecer bem é aceitar as limitações e tirar partido delas.
    Se não conseguir andar depressa, apreciar, porque se vai mais devagar, tudo.

  3. valter hugo mãe: “Na cabeça dos velhos pode haver turbilhões” | Bibliotecário de Babel on Janeiro 28th, 2010 20:58

    […] a máquina de fazer espanhóis, romance que marca a passagem da editora QuidNovi para a Objectiva (chancela Alfaguara), valter […]

  4. Lançamento de ‘a máquina de fazer espanhóis’ no MNAA | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 2nd, 2010 17:17

    […] mais recente romance de valter hugo mãe vai ser apresentado por António Lobo Antunes, dia 10, quarta-feira, no Museu Nacional de Arte […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges