Agricultura às avessas

Tradutor de Chuvas
Autor: Mia Couto
Editora: Caminho
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-21-2400-3
Ano de publicação: 2011

Mia Couto é um bom ficcionista mas um poeta mediano, que oscila, por vezes dentro do mesmo poema, entre versos belíssimos e outros dispensáveis. Aos 66 poemas de Tradutor de Chuvas faltou sobretudo a passagem por um crivo mais apertado, capaz de separar o pouco trigo do muito joio.
A pairar sobre este livro sente-se um fardo lírico pesadíssimo (a obrigatoriedade de atingir um registo poético vibrante, que se torna assim tão esforçado quanto forçado), talvez porque o autor de O Último Voo do Flamingo vê na poesia uma actividade demiúrgica que cria o seu próprio mundo, uma espécie de «agricultura às avessas» em que o poeta «numa única semente / planta a terra inteira», ao mesmo tempo que admite só ter palavras «para o indizível».
O sujeito faz-se no acto de escrever e por isso sucedem-se os nascimentos reais ou simbólicos, as mães e os filhos, os prantos e os partos, as casas e os rios, os infinitos e as eternidades – um cansativo labirinto de arquétipos. Os melhores poemas acabam por ser os mais curtos («A minha tristeza / não é a do lavrador sem terra. // A minha tristeza / é a do astrónomo cego»), os mais narrativos (breves contos em verso, como O brinde e Os que esperam), aqueles que materializam subtilmente a passagem do tempo (O bairro da minha infância) e aqueles que focam com nitidez gestos concretos (a rapariga sentada num degrau, pintando as unhas como quem oculta a morte da sua meninice, corpo dobrado na «delicada intenção do ourives»).
Infelizmente, Mia Couto não soube deixar de fora os poemas redundantes e inúteis, os que nada acrescentam, os que só nos relembram as fragilidades da sua escrita (quem é que ainda tem paciência para a «sonholenta janela»?) e eclipsam os seus fulgores.

Avaliação: 4/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Agricultura às avessas”

  1. Tito Couto on Abril 7th, 2011 9:47

    É uma leitura justa. concordo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges