Anatomia de um génio

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Nikolai Gogol
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Carlos Leite
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-37-1227-8
Ano de publicação: 2007

A maioria das biografias começam pelo princípio. Vladimir Nabokov, na sua abordagem à vida e obra de Nikolai Gogol, começa pelo fim. Isto é, pela crua descrição dos últimos momentos do escritor, que morreu aos 42 anos, meio enlouquecido e massacrado pelos médicos que lhe aplicaram horrendas sanguessugas no nariz (o herói de várias das suas histórias).
Se o mundo de Gogol estava sempre às avessas, faz sentido que Nabokov, ele próprio um heterodoxo, vire tudo de pernas para o ar neste livro fragmentário e sem fio condutor. Mais do que um retrato de Gogol, este é um espelho partido em mil pedaços, um feixe de “notas” em busca do sentido profundo da escrita, uma aproximação feita de sageza e respeito, um exemplo de inteligência literária.
Embora siga vagamente o percurso biográfico de Gogol, saltando por cima de uma infância sem interesse e concentrando-se na forma como o escritor lidou quer com a mãe quer com os seus demónios (expressos na tardia deriva religiosa e no pavor de não concluir a obra-prima que todos esperavam dele), o foco de Nabokov incide quase exclusivamente nas principais obras que o escritor deixou: a peça O Inspector-Geral, o primeiro volume das Almas Mortas e O Capote.
“Antes de Gogol e Puchkin, a literatura russa era cega”, afirma-se. Em oito décimos deste livro magnífico, o que o autor de Lolita faz é uma exegese brilhante do modo como Gogol conseguiu abrir os olhos (ou, se quisermos, os horizontes) de uma língua que parecia conservada no formol do classicismo.
Mais do que nas intrigas, o verdadeiro interesse dos seus livros está nas “curvas da sintaxe” e na forma como vai criando “personagens periféricos” em “passagens que rebentam literalmente de gente miúda que irrompe aos trambolhões e se espalha por toda a página (ou que cavalga a pena de Gogol como uma bruxa a vassoura)”.
O que Nabokov nos dá a ver, através de um meticuloso close reading, é o génio em acção, a abrir caminhos novos e a inverter a lógica racional que nos limita e escraviza. Mudanças de foco, saltos para a frente, deslizamentos, toda esta vertigem pode ser resumida numa frase: “Imagine-se um alçapão que se abre sob os nossos pés com um repente absurdo, e uma rabanada lírica de vento que nos ergue no ar e nos deixa cair com um baque no alçapão seguinte.”
É assim a escrita de Gogol: um “fenómeno de linguagem e não de ideias”. Razão para Nabokov se insurgir contra todas as apropriações, seja de quem o dizia “realista”, seja de quem reduziu a complexidade desta ficção ao mero veículo de uma denúncia de cariz social.
Diante do “mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia”, é inútil tentar resolver enigmas. Mas vale a pena aprender a dizer “Gó-gol” em vez de “Go-gól”. Porque “não se pode esperar compreender um autor se nem sequer se for capaz de pronunciar o seu nome”.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

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Comentários

2 Responses to “Anatomia de um génio”

  1. AMIGOS DO CONCELHO DE AVIZ on Fevereiro 5th, 2008 1:17

    Pode não ter nada a ver com o assunto aqui tratado, mas porque a cultura é um “bem” importantíssimo a defender, convido-vos a participarem nos VI Jogos Florais de Avis, que já são uma referência no panorama cultural português. Sendo uma iniciativa da Amigos do Concelho de Aviz-Associação Cultural, o regulamento está disponível em http://www.aca.com.sapo.pt
    Concorram e boa sorte.
    Saudações culturais.
    P’la ACA,
    Fernando Máximo!

  2. Alexandre Kovacs on Fevereiro 5th, 2008 18:15

    Muito boa a sua análise sobre esta biografia escrita por Vladimir Nabokov. Seria interessante conhecer o ponto de vista do autor de Lolita sobre outros autores russos como Tolstoi e Dostoievski.

    Se bem que Nabokov nos fornece uma pista clara quando diz que: “Antes de Gogol e Puchkin, a literatura russa era cega”. Será mesmo?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges