Anatomia de uma separação

nós

Nós
Autor: David Nicholls
Título original: Us
Tradução: Ana Cunha
Editora: Jacarandá
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-87-5216-1
Ano de publicação: 2014

Douglas Petersen, um bioquímico de 54 anos, algo obtuso na sua relação com o mundo moderno, é acordado a meio da noite pela mulher. O casal está a poucos meses de ver o filho partir para a universidade e Connie, antecipando-se talvez à síndrome do ninho vazio, anuncia que o «casamento chegou ao fim». As ondas de choque provocadas por esta decisão não comprometem o projecto de uma viagem pela Europa com Albie, espécie de grande digressão cultural com vista a preparar o adolescente «para o mundo adulto, como no século XVIII». Ou seja, a família tem à sua frente quase um mês de visitas a museus em cidades históricas, com longos trajectos de comboio entre elas. A ideia é começar em Paris e seguir por Amesterdão, Munique, Verona, Veneza, Florença, Roma e Nápoles. Mas as coisas depressa dão para o torto quando um desentendimento na Holanda, entre Douglas e o filho, provoca a fuga precipitada deste para Itália, pelos seus próprios meios e sem revelar o paradeiro, na companhia de uma namorada de ocasião, acordeonista de rua. Connie regressa a Inglaterra e Douglas encarrega-se de procurar Albie, como quem procura uma agulha num palheiro.
Apesar da abrangência sugerida pelo título, Nós é narrado apenas por Douglas. Através dele, assistimos à metamorfose da história. Se de início ele pretende aproveitar a viagem para reconquistar Connie, o papel de pai (com todo seu historial de questões mal resolvidas) acaba por sobrepor-se ao de marido, embora todos os planos afectivos estejam emaranhados – ou não fossem as divergências sobre o modo de educar Albie a origem das principais tensões internas do casal. Quando fica sozinho em busca do filho, o relato de Douglas assume contornos de romance picaresco. De Siena a Madrid, com um último acto em Barcelona, acontece-lhe de tudo: documentos perdidos, queimaduras do sol, uma detenção rocambolesca, picadas de alforrecas, experiência de quase-morte e um simulacro de final feliz. É uma jornada de aprendizagem, durante a qual assistimos à espantosa transformação de um homem de meia-idade, ainda muito a tempo de deitar para trás das costas a sua proverbial rigidez.
Ao decidir contar esta crónica de uma separação anunciada em 180 fragmentos que vão e vêm no tempo, entre o presente da viagem pela Europa e o passado das várias fases (boas e más) de um casamento, Nicholls construiu uma estrutura narrativa de uma eficácia absoluta. Os vários planos entrelaçam-se com naturalidade, tudo flui, dos diálogos ao humor quase sempre certeiro (e bem transposto pela tradução de Ana Cunha), mas o que torna a narração muitíssimo vívida é uma atenção extrema aos detalhes. Exemplo: durante um filme ao ar livre, «o céu escureceu e a projecção ficou mais definida, as andorinhas a dardejarem diante do ecrã como mosquinhas no celulóide – ou talvez fossem morcegos, ou as duas coisas». A prosa aparenta por vezes falsa leveza, um brilho fácil, uma perfeição estilizada, mas se olharmos com cuidado descobrimos súbitos abismos e uma gravidade escondida debaixo dessa primeira camada, como nalguns dos quadros clássicos que a família Petersen contempla nos velhos museus da Europa continental.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges