Andamentos crepusculares

Nocturnos
Autor: Kazuo Ishiguro
Título original: Nocturnes: Five Stories of Music and Nightfall
Tradutor: Rui Pires Cabral
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 229
ISBN: 978-989-616-322-8
Ano de publicação: 2009
Após seis romances que lhe deram um lugar de relevo no mapa da literatura inglesa contemporânea (embora um degrau abaixo de Ian McEwan, Martin Amis ou Julian Barnes), Kazuo Ishiguro decidiu publicar este ano o seu primeiro livro de contos. São «cinco histórias sobre música e o cair da noite», uma espécie de ciclo em que os vários textos, apesar de autónomos, obedecem a um mesmo conjunto de premissas. Não apenas as óbvias – isto é, a omnipresença de crepúsculos (por vezes metafóricos) e de personagens que são músicos (guitarristas, cantores românticos, saxofonistas, violoncelistas) – mas outras, talvez invisíveis ou subterrâneas, que conferem a este conjunto uma inequívoca unidade estrutural, temática e estilística.
Em entrevistas, Ishiguro admitiu ter arquitectado o livro como uma peça musical em cinco andamentos. Uma analogia legítima, embora mais do que previsível, a que se pode contrapor o facto de os andamentos se parecerem tanto uns com os outros que se torna difícil distingui-los. Dito de outro modo, se Nocturnos fosse realmente uma composição musical, seria uma espécie de adagio contínuo, com breves passagens allegro giocoso (correspondendo a inesperadas irrupções de um humor digno das comédias slapstick, em que um homem se põe, na pior altura, a imitar um cão enraivecido, ou alguém decide esconder certo troféu nas entranhas de um peru assado).
Apesar destes momentos de comic relief, o tom geral é melancólico. A primeira história narra a ambígua serenata que Tony Gardner, um «velho crooner dos tempos idos», oferece à sua mulher em Veneza, a bordo de uma gôndola, frente ao palazzo onde ela o escuta, nas sombras do quarto. Por trás do romantismo kitsch esconde-se uma pequena tragédia sentimental, uma acre reflexão sobre a volubilidade do amor e o poder destrutivo da passagem do tempo. Espectador passivo deste ocaso, o narrador, um voluntarioso jovem músico de rua que acompanha Gardner à guitarra, lembra que «havia naquela voz uma certa qualidade de cansaço, e até um toque de hesitação, como que a sugerir um certo desconforto na expressão dos sentimentos».
Este «toque de hesitação» é comum à maioria das personagens do livro, que em geral não sabem muito bem o que fazer das suas vidas. Por um lado, há as que estão mergulhadas em dilemas existenciais insolúveis, como Gardner e a sua mulher Lindy (que aparece em dois contos), o caótico professor de inglês no estrangeiro de Faça Chuva ou Faça Sol, a violoncelista virtuosa que deixou de tocar aos 11 anos para proteger o seu «dom» ou o saxofonista feio que se sujeita a uma operação plástica (em Nocturno) para salvar a carreira, só porque lhe dizem que tem «o tipo errado de fealdade». No extremo oposto estão os jovens cheios de fé no seu talento, como o narrador de Malvern Hills ou o protagonista húngaro de Os Violoncelistas, condenados a juntarem-se, mais cedo ou mais tarde, aos outros todos, no lamento pelo potencial que um dia tiveram e nunca chegaram a explorar completamente.
Ishiguro escreve com imaculada elegância, usa pinças quando é preciso usar pinças, controla o ritmo narrativo e oferece-nos algumas figuras humanas memoráveis. Ainda assim, sobra sempre um ligeiro travo de desilusão no fim de cada texto. Falta aqui mais rasgo, mais risco, talvez algumas dissonâncias (para manter a analogia musical). À consciência de que estas histórias são boas, sobrepõe-se a certeza de que podiam ser muito melhores.
Quanto à tradução de Rui Pires Cabral, pareceu-me irrepreensível.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
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Assim não vale: vou ficar doida aqui esperando por este livro. Li todos os romances que foram traduzidos: Resíduos dos dias, o melhor. Kazuo tem a marca de suscitar um mistério, que não vai sendo revelado, já está lá desde o começo, basta prestar atenção, está no cerne do personagem, no seu ânimo, ou essência – de saída, fascinante.
Uma curiosidade: os editores não estão levando a reforma ortográfica a sério, não é? Nocturnos!
Pois aqui, desde janeiro, tudo que é editado, dos jornais aos livros, todos seguem a reforma. Quem diria, nós, brasileiros, no papel dos que cumprem acordos com seriedade. Estamos melhorando.