Ao fundo do jardim

a porta secreta

A Porta Secreta
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-641-383-5
Ano de publicação: 2013

Nos seus romances e novelas, Ana Teresa Pereira nunca escondeu o fascínio pelos livros de aventuras juvenis de Enid Blyton. Muitas das personagens os mencionam, chegando a procurar edições antigas em alfarrabistas. Esse suave encantamento britânico paira em cada uma das páginas de A Porta Secreta, história escrita a pensar num segmento etário específico (algures entre o fim da infância e o início da adolescência), mas que pode ser lida com proveito em qualquer idade.
Nos arredores do Funchal, Ema aluga, para si e para os dois filhos, Sara e Miguel, uma casa que fica «praticamente no meio do campo» – o oposto do «bairro tão feio onde viviam antes». Nas traseiras há um belo jardim, a mãe deixa as crianças terem um cão e um gato, a família abalada em tempos pela morte do pai parece encontrar o equilíbrio. Mesmo ao lado, uma grande quinta e respectiva mansão, propriedade de uma família inglesa, alimentam as fantasias de Sara e Miguel. Descoberto um acesso escondido, eles fazem amizade com um pintor de passagem e especulam sobre as luzes que se acendem, à noite, no torreão. Como em Blyton, os estremecimentos e receios não correspondem a um perigo efectivo e os heróis estão de volta à hora do lanche.
Outonal e serena, a história reúne muitos elementos do universo da autora: flores, cinefilia, aparições no nevoeiro, pintura (a chave é uma aguarela que pode ser de Turner e representa o princípio do mundo). A escrita é despojada, precisa, acessível, mas capaz de achados. Por exemplo, a velha casa, ao luar, surge como «uma concentração de silêncio». Mais do que para o mistério, a porta secreta ao fundo do jardim dá para a literatura.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges