Apenas seres humanos

cultivo

O cultivo de flores de plástico
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-989-672-187-9
Ano de publicação: 2013

Numa didascália desta sua primeira peça de teatro, Afonso Cruz sugere que uma personagem tem «palavras desmedidas na boca» e «hálito de mar e de vodka». São indicações talvez pouco úteis para um encenador, mas que permitem desde logo estabelecer a atmosfera em que decorre esta aproximação aos problemas (mas também às inesperadas alegrias) de quem vive na rua, mais concretamente quatro sem-abrigo que beberam a «poção de invisibilidade» da miséria e por isso se tranformam em «fantasmas numa cidade assombrada».
Em nove cenas de assinalável economia dramática, Afonso Cruz oferece-nos retratos muito nítidos das personagens: Couraçado Korzhev, um russo que guarda mapas num saco, conchas no bolso e uma nostalgia alimentada a álcool; Jorge, um homem que um dia se fartou da hipocrisia, mandou a ordem social dar uma curva e vive em função dessa desistência (embora insista em espalhar actos aleatórios de bondade); Lili, sempre à procura das fechaduras onde entrem as chaves que lhe sobraram do tempo em que tinha um tecto; e uma «senhora de fato», disposta a fingir que finge a pobreza absoluta em que o desemprego a lançou.
Em diálogos precisos, líricos mas nunca sentimentais, estas pessoas perdidas de si mesmas, e das suas memórias, encontram-se e criam, do nada, um nexo forte e uma razão para continuar em frente. Nesta sociedade em que «é tudo plástico», até a felicidade, e se substitui «o próprio plástico por plástico», ainda há quem tenha as mãos a cheirar a flores, mesmo se roubadas no cemitério. E quem fale – lá está – com palavras desmedidas: «A pensar em nós, ninguém faz campanhas contra o abandono. Somos apenas seres humanos.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges