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Aqueles que saltaram

A Manhã do Mundo
Autor: Pedro Guilherme-Moreira
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 205
ISBN: 978-972-204-519-3
Ano de publicação: 2011

No dia 11 de Setembro de 2001, quando as torres do World Trade Center já ameaçavam ruir, o mundo assistiu a um terrível espectáculo: dos andares mais altos, acima da zona de impacto, empurradas pelas chamas, pelo fumo e pela falta de oxigénio, dezenas de pessoas (fala-se em perto de 200, no total) começaram a saltar no vazio, para a morte certa. A imagem de um homem de cabeça para baixo em pleno ar, foto que a imprensa baptizou The Falling Man, tornou-se mesmo um dos ícones do horror impossível – mas real – daquela funesta manhã.
São estas pessoas que tiveram a coragem de saltar e escolher o seu fim, quando não podiam escolher mais nada, as personagens centrais do surpreendente romance que marca a estreia literária do advogado Pedro Guilherme-Moreira (n. 1969). Surpreendente por ser uma narrativa americana de fio a pavio, até ao osso, escrita por um português que admite nunca ter posto os pés em Nova Iorque. A verdade é que naquele dia, e nos que se seguiram, todos estivemos em Manhattan. Escrever sobre o 11 de Setembro, mesmo para quem assistiu à tragédia no outro lado do planeta, corresponde a trabalhar uma memória traumática que se tornou universal. Depois, com os motores de busca na internet e o Google Maps, não há nada que não se possa reconstituir, da meteorologia ao nome das ruas, das estradas, das pontes, dos transportes públicos, etc. Ainda assim, louve-se a verosimilhança.
O impulso de Guilherme-Moreira para escrever sobre os jumpers nasce de um sentimento de injustiça. Aquelas pessoas que para ele são «ícones da dignidade e da coragem» foram acusadas por muita gente de fraqueza e desistência. Ideia que ganha corpo na raiva de Ayda, uma mulher em desajuste com o mundo, que vê neles uns «cobardes suicidas». A primeira parte do livro encarrega-se justamente de refutar esta acusação, unindo cinco «fios do destino» – um cozinheiro do Windows on the World, um concierge, uma jornalista gastronómica, uma recepcionista da Cantor Fitzgerald (a empresa com mais vítimas no 9/11) e um advogado –, mergulhando nas suas vidas, nos seus problemas, e enumerando o somatório de acasos que os levaram ao 106.º piso da Torre Norte do WTC à hora errada. Na adversidade extrema, eles superam-se. Mostram-se dignos. E saltam.
Entra então em cena a teoria dos universos paralelos, toscamente apresentada no capítulo «menos um». Noutro 11 de Setembro, com circunstâncias ligeiramente diferentes e possibilidade de fuga, até que ponto resistiria o «molde da decência humana»? Não resistiria. A grandeza dos heróis dá lugar ao egoísmo e à pulsão animal dos mecanismos de sobrevivência, enquanto Ayda expia, conformada, o seu erro de julgamento. O horror ganha outras formas (a torre Norte, por exemplo, só cai pela metade), espalhando-se como ondas pelo mundo inteiro e deixando, para os que escaparam, o peso da culpa, amargos arrependimentos e complicados trabalhos de luto. «Quis que vissem como se esboroam pessoas, não edifícios», diz às tantas uma personagem, resumindo numa frase as intenções do autor.
Assumidamente mais próximo do cinema do que da literatura, A Manhã do Mundo é um romance de grande eficácia narrativa, bem arquitectado, mas com excesso de pathos, alguns simplismos (sobretudo as comparações com o Holocausto) e fragilidades estilísticas evidentes, embora perdoáveis numa primeira obra.

Avaliação: 6,5/10

[Versão aumentada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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