Arte da errância

O Anel do Poço
Autor: Paulo Teixeira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-972-21-2036-4
Ano de publicação: 2009
Na primeira parte deste livro, Paulo Teixeira deixa «a musa em casa» (Lisboa) e viaja de comboio através do continente europeu e da própria ideia de Europa, essa «ficção retrospectiva». Em vez do clássico «chouriço de sangue (à portuguesa)», leva, «para levantar o moral», apenas a linguagem; isto é, a língua propriamente dita, «os seus verbos reflexos,/ vogais arredondando em música um sentido/ que se esfuma com o quotidiano que fica atrás».
A bordo do Literaturexpress (um comboio partilhado por 99 escritores, em Junho de 2000), Teixeira regista a passagem por Bruxelas, Riga ou Minsk, mas nunca cede à tentação diarística. Em vez disso, esboça uma elaborada arte da errância, que é também uma arte da contemplação. Nos versos depuradíssimos e elípticos – há neles, quase sempre, um elemento de esquiva – ganham forma caminhos, igrejas, castelos e descampados que são sempre mais do que caminhos, igrejas, castelos e descampados. O sujeito poético olha para as coisas com o olhar do pintor, capaz de discernir na paisagem o que lá está (volumes, planos inclinados, sombras), mas também o que lá não está. Ou o que só existe no próprio acto de ver, como a «figuração abstracta» que emerge do «emaranhado de condutas» num complexo industrial. Mais do que a transparência, esta escrita densa procura a «turvação» das «imagens quase líquidas».
Na segunda parte do livro, as deambulações fixam-se na cidade de Berlim, onde o poeta passou uma temporada (ao abrigo de uma bolsa de criação). Flanando pelas avenidas, o que se apreende é a «confusa auréola das cidades», com os seus esplendores e paradoxos. Os tempos sobrepõem-se ao ritmo das evocações literárias (Auden, Nabokov, Walser, Gombrowicz, entre outros) e a realidade atinge-nos na cara como um soco. Há muita escuridão debaixo dos viadutos, nas linhas de S-Bahn ou nas ruas em que passam automóveis a debitar hip-hop, «ilha sonora/ com meio quilómetro de raio». Às mesas de mármore dos cafés já não se sentam Mann e Musil, mas imigrantes árabes e africanos, «ociosos, expectantes», transplantados «para este frio coágulo ao norte», onde aprendem «o solipsismo,/ a indiferença, em prédios sem ascensor». O viajante testemunha a solidão das grandes urbes e canta-a, antes do regresso à pátria, sabendo que «o mundo não é mais que escarpa,/ retícula de pedra e asfalto/ que deve ler com cuidado/ – um passo em falso/ faria do parapeito um patíbulo/ e do chão uma lápide natural».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 82 da revista Ler]
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