As ficções partilhadas

Traços de viagem
Autor: Manuel João Ramos
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 136
ISBN: 978-972-25-1942-7
Ano de publicação: 2009

Manuel João Ramos tornou-se conhecido do grande público pelo seu activismo cívico. É há muitos anos presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa (durante apenas dez meses, que chegaram para se desiludir com a política autárquica) e dá neste momento a cara por um movimento que apela ao voto nulo nas próximas eleições. Infelizmente, toda esta exposição mediática deixa um pouco na sombra o seu trabalho de investigador (na área da Antropologia, disciplina que lecciona no ISCTE) e a sua actividade de viajante – já documentada no volume Histórias Etíopes (Assírio & Alvim, 2000) e agora retomada, com maior abrangência geográfica, neste novo livro que recolhe «experiências remotas» em «locais invulgares» (Tunísia, Zimbabué, Etiópia) ou nem por isso (Espanha, Reino Unido, Portugal).
Mais do que o relato circunstancial ou literário dos seus périplos, MJR procura fazer reportagens etnográficas; isto é, súbitas imersões na realidade complexa de outros países, centradas em histórias concretas de pessoas concretas. As paisagens estão lá – o vento, a poeira, as ruas tumultuosas, o horizonte – mas o que lhe interessa são os rostos e as vozes que lhe permitem aproximar-se da verdade daqueles lugares. Aproximar-se apenas, porque MJR sabe bem demais que não podemos compreender totalmente outro povo, mesmo que nos embrenhemos pelos caminhos e marcas da sua História, passada ou presente. O registo da viagem, qualquer viagem, é sempre uma «ficção partilhada».
Sem surpresa, MJR mostra uma aversão ao exotismo de pacotilha (as «tristes farsas do chá verde com hortelã sob tendas beduínas») mas também à procura dos sinais deixados por Portugal no mundo. Quando se cruza com compatriotas no estrangeiro, aliás, começa logo a sentir suores frios. O que lhe interessa são as entrelinhas da cerimónia do café em Gondar (Etiópia), os bluffs via rádio entre traineiras de Sesimbra no alto mar, uma conversa sob o efeito do kif (haxixe) na medina de Fez. Ou então as figuras humanas mais inesperadas, do rapazito que trepa às palmeiras de um oásis tunisino (e as «estrangula» para lhes retirar a seiva) à young british artist londrina que cria candeeiros reciclados caríssimos e é doida por pastéis de nata, consumidos num café luso-eritreu manhoso. Em suma, histórias de sobrevivência e expectativa, de amor e ilusão («cada um de nós é os sonhos a que se amarra»), sempre acompanhadas por belíssimos desenhos – feitos umas vezes in loco, outras «de memória» – a que a qualidade do papel não presta justiça.
Quanto ao resto, tem poucas certezas e muitas desconfianças. Desconfia, por exemplo, do «sonho nacionalista galego», incapaz de fazer frente aos «prazeres consumistas» (sejam eles «a compra de um novo Seat» ou a celebração carnavalesca do dia de Reis em Madrid). Desconfia do futuro do Zimbabué, preso num labirinto político que a retórica pós-colonial não consegue sequer explicar, quanto mais resolver («em Harare, a África e a Europa casaram-se em regime de separação de bens e de apropriação de adquiridos»). Desconfia ainda da «hermenêutica dos arqueólogos», que no seu entender pretende criar à força um passado islâmico para o «casario incaracterístico» de Cacela-a-Velha, com o objectivo de que o «lugarejo minúsculo» assuma o papel de excepção à catástrofe urbanística do Algarve, para que seja, enfim, «a pérola preservada no âmago da carne demasiado perecível da ostra».
A cada momento, MJR pergunta-se, como Bruce Chatwin: «Que faço aqui?» Uma dúvida legítima, mas que já traz em si a resposta: «o mundo gasta-se, erode-se, destrói-se e altera-se, mas, nos traços que nele deixamos, ficam preservados – como num molde invisível – os múltiplos sulcos que foram feitos antes dos nossos.»

Avaliação: 7/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges