As palavras são tudo

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011

Em 1940, os avós de Afonso Cruz acolheram em casa, na Figueira da Foz, um pintor eslovaco. Temendo as rusgas da polícia política a meio da noite, colocaram-no a dormir por baixo do lava-loiças, atrás da lenha. «Julgo que todos nós, olhando para a vida dos nossos antepassados, encontramos histórias que dariam histórias», lembra Afonso Cruz. Isto é, histórias verdadeiras que se podem transformar em literatura. Neste caso, o acto de coragem dos avós, ao esconderem um refugiado que lhes entrou um dia de rompante na loja de fotografia, levou-o a escrever O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, um romance muitíssimo inventivo e bem escrito – digno sucessor do magnífico A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010).
À partida, o que Afonso Cruz conhecia do pintor eslovaco era quase nada. Tinha um nome (Ivan Sors), o intervalo da sua vida (1895-1950), os quadros que deixou na casa dos protectores figueirenses (uma Crucifixão e um retrato da avó, vestida de minhota), mais uns vagos factos biográficos soltos. Isto deu-lhe toda a liberdade para efabular. Alterado o nome próprio de Sors para Jozef, o pintor transformou-se então num ser absolutamente ficcional, que o romancista pôde moldar à vontade. Por exemplo, fazendo dele o filho de um mordomo demasiado sincero, incapaz de compreender metáforas, e de uma engomadeira apreciadora dos gestos repetidos, das rotinas («os sapatos são bons quando não se sentem»).
Logo na infância, passada na casa do patrão dos pais (o coronel Möller, cuja autoridade não era posta em causa pelo facto de andar com flores no cabelo), Jozef descobre que a sua vocação é «desenhar o mundo». Ele olha para as coisas como se fizesse o pino, pensa através dos traços no papel e gosta de deixar os desenhos inacabados para que eles se abram «para o infinito». Abomina a «dispersão circular» e quer muito crescer para cima, vertical, sem desvios. A natureza não o ajuda, ao colocar-lhe no caminho tentações como a vizinha Frantiska, por quem sente um amor altíssimo, embora «desprovido de corpo». À excepção do momento em que a empurra no baloiço, nunca se tocam. Em vez disso, Jozef procura que a sua sombra beije a sombra da rapariga, contenta-se em encostar os lábios ao pedaço de vidro que ela antes embaciou, entra em êxtase quando consegue respirar ao lado dela, com a mesma cadência.
Depois, sucedem-se episódios. Tragédias familiares. Pessoas que morrem por causa de uma figura de estilo. A I Guerra Mundial, vista de um balão pairando sobre as trincheiras. Um Museu das Coisas Inúteis. Colarinhos assimétricos. Uma orelha arrancada. Cadernos cheios de desenhos (um só com olhos abertos, outro só com olhos fechados). O tempo a transformar tudo em areia. A mãe abandonada num hospício. Ida para os EUA. Regresso à Europa. Uma espécie de cegueira (o olhar ofuscado por sombras). Quase fim da linha em Lisboa, no meio de um «povo fatal».
Afonso Cruz narra tudo isto com vigor e precisão, em capítulos curtos. O estilo é o que já lhe conhecíamos: poético, filosófico, aforístico («Se está esticado é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador»). No manifesto gozo com que trabalha a linguagem, nota-se sobretudo neste autor a convicção de quem acredita firmemente no poder imenso, quase mágico, da literatura: «As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]



Comentários

One Response to “As palavras são tudo”

  1. Esta semana « Rascunhos on Outubro 4th, 2011 0:10

    […] – O Pintor Debaixo do Lava-Loiças – Afonso Cruz (Bibliotecário de Babel) […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges