As pequenas coisas, sem Deus

O Novíssimo Testamento e outros poemas
Autor: Jorge Sousa Braga
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 47
ISBN: 978-972-0-79303-4
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro, Jorge Sousa Braga revisita, em modo irónico, a linguagem bíblica e as suas simbologias. Os dois primeiros versos («Escrevi este testamento com sangue / de galinha») afastam logo, pelo efeito de estranheza do enjambement, quaisquer resquícios de solenidade religiosa. Ao apropriar-se de um universo semântico conhecido (matriz da nossa cultura judaico-cristã), o autor reinventa-o à luz de um lirismo singular e pessoal. Na sua versão do Génesis, Deus está ausente (no princípio, não há verbo divino) e a cosmogonia é substituída pela cosmologia: o universo «continua a arrefecer e a expandir-se a expandir-se e a arrefecer / e a condensar-se para formar galáxias estrelas planetas nebulosas // e este ramo de rosas» (a aridez da explicação científica salva pelo carácter inesperado do último verso). Se de um baptismo laico – no rio Cávado, em vez do Jordão – o poeta retém apenas, muitos anos depois, o «calafrio» da água gelada; no Sermão da Montanha limita-se a enumerar, como numa litania, os 14 picos mais altos do planeta («Cho Oyo / Dhaulagiri / Evereste / Gasherbrum II (…)», etc.), concluindo com um lapidar mandamento: «Quando chegares ao cimo da montanha / continua a subir».
Após uma sequência de poemas sobre a morte e o luto (pelo pai, mas também pelo seu antigo editor), o livro fecha no território de eleição de Sousa Braga: o das pequenas coisas, ilhas de beleza submersas na realidade quotidiana e resgatadas por um olhar atento. Podem ser os agapantos, que «explodem» como «se fosse / um fogo-de-artifício rente / ao chão». Ou a insistência de um semáforo. Ou a «luta inglória» contra as ervas daninhas: «corriola», «escalracho» e, pior de todas, «a poesia».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges