As praias do Arizona

Caligrafia dos Sonhos
Autor: Juan Marsé
Título original: Caligrafia de los Sueños
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora:
Dom Quixote
N.º de páginas: 315
ISBN: 978-972-20-4917-7
Ano de publicação: 2012

Juan Marsé abre Caligrafia dos Sonhos com uma cena de grande efeito. No bairro de Gràcia, em Barcelona, a Torrente de las Flores (rua com 46 esquinas e três tabernas) assiste, num domingo à tarde, a uma tentativa de suicídio tão melodramática quanto ridícula. Vicky Mir, uma massagista anafada e sentimental, deita-se sobre os carris do eléctrico, aparentemente para pôr fim à vida e a um desgosto amoroso. A cena torna-se grotesca porque naquela rua já não passa qualquer eléctrico e as «mutiladas» linhas, agora inúteis, curvam «em direção a nenhures». O desespero de Vicky é por isso um equívoco penoso, puro teatro, uma «falácia». Entre os mirones que assistem ao triste espectáculo, o protagonista do livro (Ringo, 15 anos, «adolescente um tanto paspalhão e de olhar sombrio») intui pela primeira vez que «o inventado pode ter mais peso e credibilidade que o real, mais vida própria e mais sentido, e por conseguinte mais possibilidades de sobrevivência face ao esquecimento».
Alter ego de Marsé, com quem partilha vários traços autobiográficos (o pai adoptivo que trabalha na desratização dos cinemas, por exemplo), Ringo é um pianista frustrado. Primeiro, a família deixou de lhe conseguir pagar as lições particulares; depois, a esperança numa carreira musical foi-se de vez ao perder um dos dedos, devorado por uma máquina na oficina de joalharia onde trabalha. Leitor omnívoro, o rapaz passa os dias numa tasca, ouvindo e vendo tudo o que se diz e faz no bairro, apurando gradualmente a arte da observação que o levará a tornar-se romancista. Mas se ele acaba por encontrar, no «território ignoto e abrupto da escrita», o «trânsito luminoso que vai das palavras aos factos», há antes disso um longo caminho a percorrer, feito de enganos, juízos falsos, imposturas e coisas entortadas pelo acaso. Ao interferir na história de Vicky, eternamente à espera de uma carta prometida pelo suposto amante, Ringo descobre ao mesmo tempo o poder e os limites da ficção.
Caligrafia dos Sonhos é um bildungsroman com desfecho irónico, mas também um admirável retrato do que era a vida quotidiana na Barcelona dos anos 40, no auge da repressão franquista – tema a que Marsé regressa uma e outra vez, talvez para exorcizar as memórias da sua própria infância e adolescência. A cidade que nos surge é baça e lúgubre, estendendo-se até ao mar «como água da chuva empoçada e suja», uma ratoeira que condena os habitantes dos bairros populares à penúria extrema. As crianças calçam alpergatas de sola de pneu, usam cordas em vez de cintos, vestem camisolas comidas pela traça, têm frieiras e «tez famélica». Não havendo brinquedos, entretêm-se contando histórias uns aos outros, inventando peripécias mirabolantes inspiradas nos livros de aventuras e nos filmes. É num destes círculos de amigos que Ringo começa a destacar-se com a suas «minuciosas invenções», cruzamento de fantasias cinéfilas com pormenores «enquistados na realidade». E é também ali que vê ser posta em causa a liberdade criativa, quando Julito, miúdo penteadinho e presunçoso (o único que anda num colégio), lhe aponta um erro básico de geografia. Na sua narrativa, Ringo descreve índios Apache a galope nas praias do Arizona, logo um dos estados norte-americanos que não dão para o mar. No braço-de-ferro entre o realismo pragmático e a imaginação, porém, nem sempre é a imaginação que fica a perder. Face ao indignado Julito, os outros rapazolas encolhem os ombros: «Querem lá saber se o Arizona tem ou não uma praia, no fim de contas o Oeste Selvagem é um território do cinema que eles fizeram seu e no qual podem fazer o que lhes der na veneta.»
Marsé domina, como poucos, os mecanismos ficcionais, mas o seu livro vale essencialmente pela prosa buriladíssima, capaz de resumir em poucas palavras uma atmosfera (a taberna como «ninho de sombras e silêncio») ou decompor uma situação nos seus mínimos detalhes (isolando, por exemplo, o permanente cheiro a creolina e enxofre nas mãos do «pai mata-ratos», a «fúria latente nos nós dos dedos», uma «voz de fumo»).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “As praias do Arizona”

  1. Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” | Bibliotecário de Babel on Maio 18th, 2012 16:41

    […] animadamente com António Lobo Antunes, autor do prefácio à versão portuguesa do romance Caligrafia dos Sonhos, editado pela Dom Quixote. Nesse texto curto, afirma Lobo Antunes, sobre o escritor de Barcelona […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges