Atrás de tempos

O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-0-04412-9
Ano de publicação: 2012

Numa peça teatral publicada em 2012, Não Há Vozes Não Há Prantos (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), Mário de Carvalho explica que a sua comédia palaciana decorre «numa cidade indeterminada de um tempo indeterminado». Na verdade, a atmosfera e os diálogos remetem-nos para os últimos dias do império romano. As duas extraordinárias novelas com que o escritor se estreia no catálogo da Porto Editora, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, seguem a mesma linha de indeterminação geográfica e histórica. Situadas num imaginário grão-ducado – provavelmente na Europa Central (a ver pelos nomes e apelidos), mas com acesso ao mar – tanto colocam em cena burgueses e aristocratas como anarquistas, prontos a fazer explodir tudo em nome das ideias da Revolução Francesa, ainda latentes «no fundo das almas, como palhetas de ouro, ocultas por águas lamosas». Não há datas, mas pelo modo como as pessoas falam e se deslocam, em diligências e veleiros, erraremos pouco se situarmos as histórias no início ou meados do século XIX.
O Varandim
decorre em Svidânia, cidade em polvorosa com a perspectiva de assistir à execução, por enforcamento, dos autores de um atentado contra o grão-duque. Mário de Carvalho consegue trazer à liça dezenas de personagens, numa prosa barroca, vertiginosa, em que se sucedem as cenas de acção, ao serviço de um enredo complicadíssimo. No centro da novela está Zoltan Tremlich, o único habitante a quem o castigo não interessa (é contra a pena de morte), mas que tem a sorte, ou o azar, de ver o patíbulo instalado nas traseiras do seu palacete. O varandim de onde melhor se avistam as forcas passa a ser «um dom do céu», cobiçado por toda a gente e pretexto para divertidíssimos exercícios de hipocrisia social. À medida que a trama se estende e retorce, o mérito maior do narrador está na ágil transição entre planos e numa soberba arte digressiva, que tanto lhe permite fixar detalhadamente a imagem de uma gata a defender o seu território como analisar a rapidez com que uma notícia se espalha na cidade. Há sobretudo uma adequação perfeita entre o modo de narrar e o seu objecto. Veja-se, por exemplo, como é descrito o tédio de um julgamento que se prolonga mais do que o previsto: «Audiência sobre audiência. Testemunhas e peritos. Labrostes e loquazes. Requerimentos e protestos. Becas e togas. Indicadores e polegares. Desmaios e soneira.»
Ocaso em Carvangel prolonga as tensões entre classes sociais, mas numa cidade defendida por um imenso canhão, num istmo, junto a uma cratera. Palco de intrigas e massacres, Carvangel é um lugar bizarro, onde ninguém se decide sobre coisa nenhuma e toda a gente delega responsabilidades, enquanto se aguarda a chegada de um navio salvador, o Maria Speranza, como quem espera por Godot. Semelhantes na desmesura narrativa e no enorme rol de personagens, as duas novelas seguem caminhos opostos. Enquanto O Varandim se vai fechando cada vez mais, Ocaso em Carvangel termina na mais completa das aberturas, em mar alto, sem rumo, em busca de uma ilusão de liberdade que nunca há-de cumprir-se.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges